quarta-feira, 16 de julho de 2008

Ser feliz


Aceitei. Quando a Ana Rita me perguntou se queria ir fazer voluntariado à Casa do Bom Samaritano, nao hesitei e respondi que sim, sem olhar a datas nem obrigações.

Partiria segunda de manha, e ficaria lá até quarta à tarde. Três dias que se revelaram três meses.

No domingo que antecida essa Segunda feira, à noite fiquei aprensivo. Comecei a pensar para onde ia, e comecei a ficar com o pé atrás. A tarefa nao ia ser fácil. Estaria a pedir muito de mim? Estaria preparado para dispor algo que nao sabia se tinha? "Veremos", conclui. Adormeci na certeza de que ia. E isso era, naquela altura, o mais importante.

Acordei na segunda disposto a ir ao encontro do que a Divina Providência me tinha para propor. Esqueci-me, claro, que no que toca à Divina Providência, tudo aquilo que nao faz sentido, de repente parece a coisa mais lógica à face da terra.

Encontrei-me cedo com a Ana e fomos apanhar a camioneta a Sete Rios. Depois de algumas peripécias e um "Voces pensam que os motoristas sao uns grandes palhaços...!" vindo do prórpio motorista para toda a camioneta, antes do inicio da viagem, la arrancamos, em direcção a Fátima. Virei-me para a Ana, no inicio da viagem e perguntei:

"Achas que estamos preparados?"

Ela sorriu, e respondeu que sim. No fundo ela tinha mais fé que eu de que tudo iria correr bem. Liguei o MP3, encostei a cabeça, e deixei-me dormir.

Quando chegámos, ficámos à espera da irmã Ana. Figura especial, esta irma. O seu nome é Irma Ana da Paz, e realmente é verdade: transborda paz da cabeça aos pés. Ainda é nova, e a sua companhia foi sempre um factor motivante para o nosso trabalho.

Chegados à casa, onde ja tinhamos estado a uns meses atrás, ficamos à espera da Luisa e da Mafalda, duas amigas da Irmã Ana. Fomos depositar as malas aos respectivos quartos, e enquanto elas nao chegavam, saquei de uma folha que o meu amigo Tiago Krug me tinha dado, para reflectir. Era acerca da passagem da Samaritana com Jesus, e a àgua. Li, pus as perguntas na minha cabeça, e fui-me embora.
Da esquerda para a direita: Irma Ana, Luisa, Mafalda
A ideia era as respostas se fossem encontrando ao longo do dia, com a ajuda das meninas. E assim foi.

Quando a Luisa e a Mafalda chegaram, vindas de Coimbra, fomos reconhecer os cantos à casa. A memória ainda estava fresca, havia sitios que ainda perduravam na minha cabeça. Terminada a visita, fomos entao ter o contacto com as meninas. Ao principio cai-se sempre no erro de ficar de pé atrás, mas nao vale a pena. Incrivel. Sendo nós os supostos "Saudaveis" e essas tretas todas, no momento da verdade somos nós que vacilamos perante alguem que estupidamente rotulamos de "inferior".

Foi diferente. Estavamos ali por causa delas, desse por onde desse tinhamos que superar esse... medo (?). E so ganhámos com isso! A partir daí os dias foram passados numa total festa.

A primeira actividade em que iamos ajudar era o almoço. Confesso que nao estava preparado, mas gostei. Numa das mesas, faltava uma menina e entao sentei-me no seu lugar, e fiquei a falar com as restantes. Eram conversas de descoberta. Nao se desenvolvia muito, mas falar do cozinhado, do dia e das actividades que elas iam fazer ja dava conversa para horas seguidas.

Descobri as suas estações do ano preferidas, enquanto pensava na qual era a minha. Descobri que havia uma menina que fazia anos no mesmo dia que eu, e descobri ainda muitas tem tarefas distribuidas ao longo da casa. Uma sintonia a rondar o perfeito. Porque a simplicidade era a chave.

A tarde de segunda foi dedicada ao ar livre, e fomos para uma pequena mata que ficava ainda dentro das "propriedades" da Casa do Bom Samaritano. Falámos, rimos, cantámos e até fizemos teatros com fantoches. Tudo numa boa disposição. Sem qualquer preocupação a pairar na mente. Apenas o que era essencial estava ali.

Outra coisa que reparava ao longo dessa actividade era o bem estar das funcionárias, a dedicação e alegria que emitiam. Era de louvar. Todos os dias ajudavam, e percebi que tambem aquelas meninas passavem a ser parte da sua familia.

A certa altura dei conta de um rapazito que nos andava a seguir pela casa toda. Vim a saber que era o Tiago, 8 anos, filho de uma funcionária. E enquanto estavamos lá fora, nao pude deixar de reparar na maneira como ele falava com as meninas: uma simplicidade e desembaraço sem iguais. Pareciam suas irmas, na maneira como falavam, embora tivessem idade para serem suas avos. "Vê e aprende", disse-me o meu lado-oculto. Sem duvida.

Era tambem à tarde que eu começava a desenvolver uma relação muito especial com uma das utentes! Rosa Helena de seu nome, o seu sorriso, embora ja carregado de idade, e os seus constantes abraços punham-nos sempre de riso e sorriso. A minha tarefa ao longo destes 3 dias era clara: faze-la conseguir decorar o meu nome! E nao foi tarefa facil. Aliás, creio que ficou por cumprir. Para ela, eu era o Miguel, e ponto final. Nao havia volta a dar. De tal modo que quando eu ia nos corredores e ela, numa das salas, me via, depressa se levantava e dizia: "Miguel, Miguel!". Mais um nome para eu acrescentar à lista!

Chegou o jantar, e com ele maiores doses de boa disposição. Cada vez estavámos mais á vontade, aquela casa estava a ser a Nossa Casa.

As perguntas que me tinham sido lançadas para reflexão faziam o seu efeito. Descobrir as respostas era factor de alegria. Na partilha que o nosso grupo fez ("Sister Anne", Luisa, Mafalda, eu e Ana Rita) fiz questao de o mencionar. Habituado às partilhas do meu grupo, foi-me muito interessante ouvir o que a Luisa e a Mafalda tinham para dizer.

Depois do nosso jantar, onde passei a descobrir um maravilhoso sumo de laranja chamado "Ika", o qual aconselho vivamente, fomos descansar para a entrada da casa. As meninas ja estavam na cama, e estavamos á espera da Irma Ana para irmos ao Santuário.

Depois de alguns acontecimentos tais como levarmos com um balde d'agua fria em cima vindo do primeiro andar, lá nos pusemos a caminho do Santuário de Fátima. A certa altura a Margarida liga-nos (membro do GJ), dizendo que podia ir ter connosco no dia seguinte. Era outra excelente noticia, quantos mais, melhor!

Chegados ao Santuário da Fátima, sentámo-nos no meio do alcatrao, e por ali ficámos a ver e ouvir o terço que ser rezava nas diferentes linguas, na capelinha das Aparições. O tempo está agradavel, nao havia vento, e a temperatura permitia-nos estar ali toda a noite, caso fosse preciso.

Ao nosso lado, o caminho para se fazer de joelhos era percorrido por alguns peregrinos, cujo esforço era evidente nas suas caras. Passado algum tempo, olhei de novo para o lado, e vi algo que nos tocou a todos do grupo: um casal jovem, possivelmente da nossa idade, fazia de joelhos o tal percurso. Ele estava de capecete no braço esquerdo, e encorajava a namorada, embora tambem lhe custasse, a seguirem caminho. Ficámos um bocado enbasbacados. Disse em voz alta: "Se eles voltassem e passassem por aqui a pé, até ia falar com eles..!". Nao sei porque, confesso. Apenas senti-me tocado pela uniao que eles representavam ali, naquele momento. A Mafalda riu-se, mas depressa admitiu que "eu nao estaria ali de certeza com o meu namorado!".

E assim foi. Passado alguns minutos, vimo-los subir. A Irma Ana vira-se e diz-me: "Olha, ali vao eles! Va, vai lá dizer-lhes qualquer coisa.". Respondi que nao, e ela insistiu dizendo: "Há oportunidades na vida que so vem uma vez...!". Dita daquela maneira, poder-se-ia fazer uma verdade palestra. Parei um milésimo de segundo a pensar nela, levantei-me num àpice, e fui ter com eles.

Ao chegar junto deles, disse-lhes sem hesitar que admirava a devoção que tinham e que saltava à vista, numa idade que sabiamos que nao era comum. Trocámos algumas palavras, mas acima de tudo, trocámos olhares. Olhares de quem percebia que nao nos conheciamos de lado algum, mas havia algo que nos ligava: Ele.

Ao sairmos, desabafei o quao marcado me tinha a imagem deles os dois, de maos dadas, a descerem de joelhos. Foi entao que a Ana Rita me disse das daquelas frases que me deixou...

Os outros dias foram mais do mesmo: Ajudar! Foram autenticas descobertas das pegadas de S.Francisco, culminando com o filme "Irmao Sol e Irma Lua" (noite de terça) (filme o qual é espectacular, muito graças à incomparavel beleza da actriz que fazia de Clara :P). A Mafalda e a Margarida dormiam na sala, mas o filme prendeu-me e nao deixou dormir-me. Fiquei surpreendido pela vida de Francisco. Gostei.

Era altura de fazer o balanço. No autocarro apercebi-me de que, enquanto for capaz de ajudar...

... enquanto souber abraçar para fazer sorrir...

... e enquanto tiver pessoas ao meu lado dispostas a fazer o mesmo...



... serei, de certeza, feliz!

domingo, 13 de julho de 2008

Agora preciso do Teu sorriso, do Teu olhar e da Tua voz.

E embora precise deles urgentemente, é bom saber que preciso!

Amanha parto, de mochila às costas, para ajudar. Sei que nao vai ser nada facil, talvez ainda nao tenha bem a proporção das coisas, mas uma coisa é certa: Quero ajudar.

Amanha parto, de mochila às costas, para reflectir. Teem sido semanas de aprendizagem intensa, quero restruturar tudo aquilo que tenho aprendido e definir novos rumos. Vai dar trabalho, mas como diz a Irma Ana, "ninguem vem a esta casa e sai igual."

Pedro ri-se ao ler esta linhas. Foi ele me que sugeriu aceitar a proposta da Casa do Bom Samaritano.

Cláudia estava nos seus braços, deitados sobre a cama, a sentirem o por-do-sol. Ela sorria tambem. No entanto, quando olhou para mim mudou as feições. Fazia-o para nao ter que dizer directamente o que queria saber.

"E agora?", perguntou-me. Entendi-lhe as palavras. Percebi a curiosidade e a leve preocupação.

Pedro, ainda antes que eu pudesse responder, disse-lhe, como se eu nao estivesse ali:

"O André será sempre o André. E isso significa tudo. Se hoje a terra é boa para semear, porque nao o será amanha? Se hoje a semente que deitas germina e dá bom fruto, porque nao o dará amanha?..."

Claúdia bebia-lhe as palavras, e eu pasmado fiquei. Pedro nada disse, apenas sorriu. Acho que ele sempre teve, e sempre terá, mais fé que eu. Mas para isso é que há... o lado-oculto.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Instituto Gregoriano de Lisboa

Houve um dia que sonhei, por momentos, que a nossa escola de música era tambem a nossa casa. Deixei-me envolver pelo sonho, construi uma história, e prometi que a iria escrever:


20h. Cheguei a Entrecampos. Saio do Metro lentamente, completamente estafado do dia. A casa, essa ainda nao se via, mas estava lá perto. Virei a esquina, e la ao fundo começava a deslumbrar-se. Fica no final da Avenida 5 de Outubro, e está no melhor sitio que podia estar.

Abro a porta. Os professores ja nao estao, as aulas ja acabaram. Hoje nao é o meu turno de estar a na cozinha a preparar o jantar, felizmente. Sim, o nosso internato é diferente: os alunos mais velhos ficam encarregues de tudo, inclusivé cuidar dos mais novos. Limpo os pés, e suspiro: "Lar doce lar.".

Os quartos, para quem conhece a casa, ficam no segundo e terceiro piso, cozinha e refeitório ficam no quarto. Ainda no rés-do-chão, fui ter à sala de Alunos. Entrei. Estava lá o Luis, o Jorge, a Magui, o Grilo e algus miudos do básico. Grunhiram um "boa noite", e continuaram de olhos pregados na televisao. Fui-me embora.

Quando fechei a porta, ouvi alguem a tocar piano. "A esta hora?", pensei. O som vinha do salão, e foi para lá que me dirigi. Abri a porta, e estava la o Pedro Damásio, a Bea, a Ana Spencer e claro, mais alguns miudos, todos a discutirem freneticamente as suas músicas de piano. Mal entrei, o Damásio virou-se e disse:

"André, isto nao é zona para ti". , disse com um sorriso de gozo.

"Eu sei, é abaixo da minha qualidade." , respondi com o mesmo sorriso. Era bom estar de volta a casa.

Antes de ir ver como estava a preparação do jantar, subi ao segundo andar. O meu quarto ficava por lá. Como era aluno do 8º grau de instrumento, tinha direito a quarto so para mim. Deitei-me na cama, barriga para cima. Nao havia nada melhor do que chegar aquela casa depois de um dia estafante. Descansei 5 minutos e, upa, está na hora de ir ver como estao as coisas!

Subi ao quarto andar, entrei na cozinha. Hoje estavam encarregues a Laura, a Margarida, a Ana Gomes, a Maria e a Fatinha.

"Ui! Isto hoje vai sair uma delicia", disse-lhes enquanto cumprimentava e sentia o agradavel cheiro do cozinhado.

"Comblé, camandro!", soltou a Ana. Certas expressões nunca tiveram significado próprio, sao apenas usadas porque... sao as nossas expressoes!

"André, temos que avisar o stor Ricardo que este fim-de-semana temos que fazer mais compras, estamos outra vez a ficar sem nada na dispensa.", dizia-me a Laura sem tirar os olhos da comida que confecionava.

"Mais compras? Mas entao alguem anda a devorar a dispensa à noite, ou coisa assim. Ainda na semana passada fizemos compras para... hum... duas semanas...!", respondeu a Fatinha. "Temos que ter mais cuidado com os miudos, tenho o pressentimento que ás vezes nos desleixamos para eles. E como dormimos no 2º piso, eles nao teem dificuldade nenhuma em cá chegar..."

"Entao vamos por o Alberto a dormir em frente à dispensa, assim os putos ja nao tiram nada."
, sugeriu a Ana, na bricandeira.

Rimo-nos todos da situação, imaginando o Alberto, aquela torre, a dormir em frente à dispensa.

"Bom, entao alguem tem que tratar de falar com a direcção mal possa. Amanha saio cedo, tenho estudo no IST por volta das 8. Alguem fica em casa?"
, perguntei.

"Amanha vou ter que ficar a estudar para um exame, portanto acho que posso ficar encarregue disso.", respondeu a Maria.

Sai da cozinha em direcção a um pequeno estúdio que se situava no sotão. La dentro estava o AndreBa, o AndreLo e o Tiago Amaro. De auscultadores nos ouvidos, descansavam e aproveitavam o sol que entrava pela janela.

"Lourenço, nao eras tu hoje encarregue de por a mesa, com mais alguns miudos?", perguntei.

"Oh André, pah... primeiro, nao chames Lourenço... segundo.. trabalhas é demais... tem mesmo que ser? Mandem os putos... ... pronto pronto, daqui a 5 minutos ja vou por", respondeu-me. Ainda agora quando escrevo isto, tenho alguma dificuldade em imaginar o André Lourenço a por uma mesa para mais de 30 pessoas :P

Desci as escadas. Agora era aproveitar até que nos chamassem para jantar. Era sexta-feira, o pessoal ia todo sair, tinha calhado a mim ficar nessa noite a tomar conta da casa. Fui de novo para o quarto descansar.

Habituado a ir para o meu outro quarto, que partilhava com o Tiago Oliveira, entrei de rompante e deparei-me com ele e a Ana Raquel a conversarem.

"Anda bem que te vejo", disse o Tiago, "Queres amanha ir tocar a um casamento a Alverca?"

"Até ia, mas amanha tenho que ir estudar cedo para a faculdade."

"Amanha?! Mas amanha é sabado! Vá, estudas noutro dia", tentava convercer-me a Ana.

Cedi. Sempre gostei imenso de tocar com eles, impossivel de recusar.

Enquanto conversavamos, ouvimos o habitual: "JANTAAAAAAAAAAAAAAAAAAAR!", que se gritava pelos corredores, na hora de ir para a mesa.

Era o reboliço do costume. As portas dos quartos abriam-se, o pessoal subia as escadas e reunia-se no agradavel refeitorio.

"Ora bem.. música para hoje?", perguntou o Joao Pedro.

A parte das habituais sugestoes como "D'ZRT" ou "4Taste", lá se escolheu Tchaikovsky, e o jantar começava. Porem, antes de se atacar o delicioso prato confecionado, era hora de agradecer.

"André, vá, faz lá a tua habitual rúbrica", pediu o Ricardo.

Levantamo-nos. Disse umas quantas palavras sonantes, e prontamente nos sentamos, a fome ja se fazia sentir.

A meio do jantar, houve-se uma voz grossa a pedir ainda no corredor: "AINDA HÁ COMIDA PARA MIM?". Era o Manel, chegava tarde mas a tempo de devorar, ao seu bom estilo, tudo o que havia sobrado e possivelmente ainda ficaria com fome.

Acabado o jantar, outra equipa foi escolhida para lavar a loiça, levantar a mesa, enfim... deixar tudo pronto para o dia seguinte.

Passado algumas horas, metade do IGL ia sair para a noite. Como tinha que registar quem saia, quem ficava, la me fui meter à porta.

Manel, Teresa, Laura, Baleira, Andre Lourenço, Ana. Primeiro grupo saía.

Depois passaram tao agarrados que nem me viram nem disseram aonde iam, o Tiago e a Ana Raquel.

Passado alguns minutos, Maria, Fatinha, Mariana Cardoso, Mariana Martins, Verónica, iam-se juntar ao casal que tinha passado.

Ricardo, Afonsos, Magui, Carolina iam dar um passei ali perto.

Sexta era assim. Uma dor de cabeça para quem ficava a controlar, uma diversão para quem saia.
Fechei a porta. Ouvia-se o silêncio. Sabia bem.

Depois de ter dado ordem aos miudos do básico para ir deitar, ja eram horas, a casa ficou totalmente vazia. Por mim ainda passou a Bayley, e ao nosso bom estilo sugeri-lhe que pussessemos cruelmente os putos a lavarem a casa toda com uma escova de dentes. Rimo-nos maliciosamente e tambem da estupidez da ideia, e ela tambem saiu, esqueci-me de anotar com quem ia ter.

Brutal. Assim se descreve aquela casa. Sentei-me nas escadas que davam ao primeiro andar, zona das salas de aula, e pus-me a pensar naquilo que representava para nós. Costumamos dizer, e é verdade, que ja nem nos vemos sem esta casa. Isso é bom. Mais engraçado é ver todos a abandonarem o que fazem para seguir Música, para nos dedicarmos ao que esta casa se dedicou a fazer-nos.

Enquanto subia e descia a escadas, ia falando ao telefone, bons hábitos que nao se perdem. O Verão está aí à porta, e o mais um bom ano estava a passar.

5 da manha. O ultimo grupo chegava. Era a "Rainha do Mundo", como simpaticamente chamo à Laura, mais a sua "Realeza".

"André, pah.. coiso... cenas. Obrigado! Desculpa termos chegado tanto tarde, mas ... pronto.. cenas.", disse-me.

"Vá, vai la... (bocejo)... deitar-te, eu tou a morrer de sono.". e subi as escadas em direcção ao meu quarto.

Deitei-me, apaguei a luz. Mais um dia. Vai deixar saudades.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Repetições

Ao caminhar, olhei. Sorri. Desviei o olhar. Passado instantes olhei de novo. Havia alterações.

Desviei o caminho. Olhei. Dentro de mim, sorri de novo e senti a chama a inflamar como sempre.

Continuei o caminho. Olhei para trás. O sorriso desvanesceu, a chama queimou mesmo, o olhar ficou incrédulo.

"Estavas à espera do que? Que fosse tudo um mar de rosas?", perguntou-me o Delavid.

sábado, 5 de julho de 2008

Retiro

Em conversa com o meu Grupo de Jovens, que inflizmente continua sem nome, foi-nos "oferecido" uns dias de voluntariado na casa um fizemos o nosso retiro à uns meses atrás, a Casa do Bom Samaritano, em Fátima.

Aceitei logo, mas tambem por outra razao: vou em reflexão. Vou para o Voluntariado, mas sabendo que a Casa é ja "fora" de Fátima, e num local muito sossegado, gostaria de reflectir.

Nao costumo falar muito concretamente acerca do Lado-Oculto com as pessoas (salvo raras e boas expeções). Mas há bocado surgiu-me esta ideia:

Quem quiser pode deixar neste post um comentário com uma passagem da Bíblia que goste, e umas perguntas para se reflectir acerca dela.

Muito muito Obrigado!

sexta-feira, 4 de julho de 2008

"Abre a mão"

Nao sabia o que fazer. Percebi que Tiveste que interferir.

Senti a Tua mao no meu ombro, e a Tua voz a dizer-me: "Abre a mao."

A mesma que me disse: "Entrega-te", diz-me agora: "Abre a mao."

Deixei libertar.

Olhei para Pedro, limitou-se a curvar a cabeça em sinal de apoio.

Porque? Porque tive de abrir a mao? Porque tive sequer de fecha-la?

Tens algo na Tua manga. Faço disso aventura. Tu sabes que sim.

E sei, tal como Tu sabes perfeitamente, que Estas a esconder algo.

É aqui que a aventura começa de novo!

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Guerras


Estamos cansados de lutar. Quando tudo ja parecia certo, outra vez atacam pela calada: um despacho rápido do Ministério visa deixar os alunos mais velhos do I.G.L a estudar na rua....

Nao paramos. Sorrio ao ver-nos unidos, "velhos" e novos, garantidos ou nao, por uma causa.. nobre!

sábado, 28 de junho de 2008

Entre

Voltava do arraial dos escuteiros, ao qual fui dar um passeio, quando resolvi passar por um caminho que ja nao percorria há muito tempo, e pelo qual passei muitas e muitas vezes quando era mais novo.

O cheiro da relva era o mesmo, caracteristico. Os postes de luz tinham ainda as mesmas marcas, e o campo de futebol inventado ainda me aparecia na cabeça.

Aos poucos, começo a ouvir passos de alguem que corria atrás de mim. Volto a cabeça, e vejo um miudito a correr, desenfreadamente. Quando passa à minha frente, tropeça e cai.

Parei. Dei-lhe a mao e disse: "Vamos, campeao, continua!". Ele agarrou a minha mao para se levantar, e olhou-me.

Reconheci o olhar. O sorriso. A franja. Até a mão.

Entretanto Pedro tocou-me no ombro e disse: "Vamos André, ja é tarde."

Percebi entao que estava a estender a mao ao nada.

"Há memórias que nao se apagam...", disse a Pedro.

Ele riu-se e respondeu: "Ainda bem que sabes disso..!"

quinta-feira, 26 de junho de 2008


Devias usar aquela cor :P

terça-feira, 24 de junho de 2008

Luz


A luz apaga-se, fica somente a Luz. Maos cerradas, cabeça curvada, espirito em silêncio.

Peço por Ti.

Peço por eles.
(Tiago e Ana, Marcos e Mandy, Sara e Marco, outros..)
Peço por aqueles por quem ninguem pede.

Peço pela Família.

Peço pelos que sofrem.

Peço por de novo por Ti.

E adormeço, criando um sorriso de quem se alegra por se poder dar aos outros.

Relatos

Subi as escadas de cabeça baixa, o cansaço já era muito. Ao passar pelo quarto de Pedro, a porta estava semi-aberta, e ouvi-o exclamar:

"O André?!", admirava-se ao ouvir a pergunta da Claúdia, que acabara de procurar saber como eu estava. Respondeu:

"Num estado deprimente."

Ao passar de rompante, vi o olhar de preocupada de Cláudia enquanto Pedro a abraçava. Hesitei. Esperei que ele dissesse algo, como "Mas julgo que vai acontecer isto e isto" ou "Ele devia tentar fazer aquilo ou aqueloutro". Nada.

Senti-me tocado. Ter ouvido aquilo nao iria levantar a moral, que so por si já era baixa. Fui-me deitar na certeza que de "amanha é outro dia". Mas todos os dias sao outros. E os outros sao estes.

sábado, 21 de junho de 2008

Cristo

Se mesmo quando sofro, sei que Estás presente e isso me reconforta, entao como exprimir a sensação de ser feliz? É bimbo, mas percebi que isso tem realmente um valor único.

Percebi que amo (1Cor 13, 1-13), das várias interpretações que se podem tirar, tirei aquela que Tu me disseste que necessitava.

Tenho voltado para Ti, a olhos vistos, e isso é bom. Olho para trás, e percebo que devia conciliar as duas coisas, mas isso já nao sou eu que decido, deixo para Ti.

O Lado-Oculto continua a marcar caminho. Este blog é um caminho, diário, registo, enfim... entende-se. Faz hoje um ano. E como disse alguem...

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Opostos

Ouvi o lamentar, o choro, a dor de quem la longe (nao muito longe), chorava a perda de alguem querido. Era funeral.

No mesmo ruido de som, ouvi buzinares frenéticos de quem passava de carro. Acabavam de vir de um casamento.

Há tempo para tudo.

Encontros


Baixa, rosto suave, pele branca. Cabelo tambem branco, a idade nao a esconde, mas ela tambem nao quer esconder a idade. Enérgica e decidida na maneira como se move, sem levantar o queixo ou mostrar-se superior. Ali ela está em casa, e goza cada momento que lá está.

Sempre que vou à missa dos escuteiros, em Carnide, 19 de Sabádo, ela lá está. As vezes usando uma especie de chinelos, reconheço-a sempre e sorrio, sempre que a vejo. Usa cores vivas, bem vivas. Gosto de a ver. Transmite alegria, e acima de tudo, vive esses momentos da missa.. com alegria. É raro ver isso. Pessoas mais velhas por vezes vivem a missa mais como um funeral.

Mal se move, o meu olhar segue-a com curiosidade. Delicia, talvez. No final da acção de graças, percorre toda a igreja e pára ao meu lado, em frente à porta principal. Maos cruzadas, olhar levantado, sorrio meio escondido. Mal o Padre faz a benção, inclina-se para levantar as estacas que prendem a porta, abre-a, e sai disparada como uma seta.

Sempre lhe estranhei esta "saída". Ha uns dias atrás, percebi porque. Passado 2 minutos de a missa ter acabado, vi-a passar num autocarro que dizia "Pontinha". Os horários estavam todos controlados, achei piada.

Admiro-lhe.

Ontem ... Hoje ... Amanha


Ontem, se pudesse, tinha visto o por-do-sol numa falésia. Se pudesse, uma brisa suave passaria por mim, uma fome apertar-me-ia o estomago e iria jantar perto. Ali perto.

Ontem, se pudesse, teria deixado as preocupações falésia abaixo. Rir-me-ia bem alto, e seria de novo livre.

Ontem...

...Hoje...

Hoje, se puder, cantarei rua fora, agarrado a minha interminavel forma de viver. Vivendo Contigo, Comigo, com Aquele que por perto me faz ser quem sou.

Hoje, se puder, vou fechar os olhos e rezar por aquelas pessoas, cuja lista esta feita na minha cabeça. Inevitavel nao sorrir quando olho para elas.

Hoje...

...Amanha...

Amanha, se puder, deixarei frases bimbas. Mas isso implicaria deixar algo de mim.

Amanha, se puder, vou-te ver. Nao o saberás, nem eu. É essa a magia.

domingo, 15 de junho de 2008

Mais um concerto, mais uma sensação de sabor-a-nada. Mais um final sem nenhuma alegria, sem sensação de dever cumprido, nada. Cansa-me. Mais ainda nao saber o que fazer.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Música!







É verdade, a classe de orgão do Instituto Gregoriano de Lisboa estava metida em mais uma audição. Desta vez, na moderna igreja de Linda-a-Velha, dia 18 de Junho, às 16 horas. Conta tambem com a intervenção do Coro Gregoriano do IGL. E iremos efectuar a obra Missa para os Conventos, de François Couperin.



Inicialmente era para ser gravado para a Antena2, mas inflizmente, e devido ao Euro, nao houve pessoal disponivel para tal. Mesmo assim, tivemos a oportunidade de ter uma MasterClass com o Professor Jose Uriol, o qual se revelou bastante simpático, atencioso, e um grande professor.




Esta pequena aventura, que ainda nao terminou, começou ontem à noite. Fomos assistir ao concerto do Professor, (eu, o Ricardo, o Joao e o Daniel), e na vinda a festa foi enorme, muito em parte à boa disposição que havia no grupo. Hoje tinhamos a MasterClass, e foi um dia bem passado.






Apesar das várias opinioes existentes serem todas muito contrárias, creio que é uma igreja espectacular. Por ser diferente, por ser original. A única coisa que me desagrada é um pintura no tecto, em que se vê a mulher a sair (literalmente) das costelas do homem. Enfim..


O órgão é bastante engraçado, visto de fora e para quem o toca, pois o som, alem de sair da frente (como é usual), tambem saí das "costas" do organista.







(Segundo o prof, dois virtuosos do orgao. Segundo nós, dois desleixados do mesmo! - Daniel e eu)


Gostei da partilhas de experiencias. Nos seus 70 anos, o Professor foi espectacular, na maneira como interagiu connosco, na sua peculiar maneira de agir. De certo, se visse aquele senhor na rua antes de ele ter actuado, jamais imaginaria que ele era um dos maiores organistas, reconhecido a nivel mundial pelo seu trabalho de peças ibericas, etc..!


(Daniel, eu, Joao - Final da MasterClass, cabeças cansadas, poses pouco compreensiveis!)

Nao estava com muita vontade de ir, ao inicio, muito em parte devido ao trabalho que tenho tido e terei. Mas no final, soube bem. Fugir à rotina, fazer algo de que gosto muito, e acima disso, estar bem reunido! Valeu a pena :)

P.s.: Para quem sabe: "CERVEZAAAA! AHH! AHH! AHH! AHH!"

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Linhas tortas

Desabafava, ontem, da falta da Sua voz. Hoje ouvi-A, com estes dois ouvidos. Falou comigo. Nao, nao foi de dentro, ouvi mesmo!

Eram 11 da noite quando voltávamos do concerto do Professor Uriol, d'orgao, o qual nos vai orientar a MasterClass de amanha. Há um ano atrás, dava, pela mesma hora, um passeio à noite memoravel, com alguem memoravel. Agora, um por um, o Joao foi nos deixando nas nossas casas. Fiquei para último. Nao sei porque, a conversa entre mim e o Joao foi parar a Ele, às escrituras, Biblia e afins...

Espectacular. Ouvi o que precisava de fazer. Ouvir o que precisava de ouvir seria dizerem-me o que vai acontecer, e isso nao é do meu interesse. Senti o conforto de saber que aquelas palavras me guiavam, que no fundo era Ele a falar comigo. Disse ao Joao, a meio da conversa: "Vou sair daqui mais reconfortado." E sai. Era como se tivessem agarrado na minha cabeça e tivessem apontado o caminho.

Agora sei o que fazer. Claramente. Agora sei que Deus escreve mesmo direito por linhas tortas.
Obrigado, Joao. Pela tua calma, pela serenidade e experiencia que revelas, mesmo sendo tao "novo". Caramba..!

quarta-feira, 11 de junho de 2008


Queria Ter-te aqui. Poder falar. So isso. Poder ouvir a Tua voz.
"If you love me..."
Fazes falta.
"won't you let me know?"