sexta-feira, 25 de abril de 2008

The Bucket List

A publicidade que havia em torno do filme era leve, sem grandes mediatismos, sem grandes "este é o filme do ano". Mas fiquei curioso. Quando fui ve-lo, da melhor maneira que podia ir acompanhado(!), essa curiosidade foi bem "morta". Nao vou estar a descrever o filme, acho que seria melhor se cada um descobrisse por si.. vale a pena.

Bimbo e foleiro seria dizer que por vezes vejo a minha vida como uma... bucket list. Mas tem que ser. A minha vida é mesmo uma bucket list. Percebi isso, quando ao ve-los a riscarem as acções que tinham marcadas na sua lista, dei por mim a ver-me a riscar tantas e tantas coisas que sempre desejei fazer, e fi-las. Nao com o objectivo de faze-las "antes de bater a bota". Faze-las somente porque assim saberia que estava a "dar alegria à vida".

Outra vertente espectacular do filme é a Fé. Quase que passa despercebida, mas no fundo é o que leva ao seu final simples mas emocionante.

Acho que nao me cansaria de ver este filme. O filme.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Concerto de Páscoa



Tenho que agradecer ao meu amigo Tiago Oliveira. Por meio de ensaios, viagens de comboio para Alverca, constipações e coisas do genero, tem sabido bem ensaiar estas peças e tocar com a malta. E o concerto promete!

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Paradeiros Cruzados

Sei agora que não é anormal. Mas surreal.

Enquanto esperava lentamente que me levassem de boleia para a minha escola de Música, o sol começava a aparecer, mas ninguem ainda tinha a coragem de passear nas ruas. Ao som de uma música qualquer, e enquanto fixava os olhos no chão, e a minha cabeça continuava desligada pelo sono, alguem se chegou perto de mim.

Uma idosa, pobre, estendia-me a mao com um envelope lá dentro.

"É para si", disse ela

Estupefacto, fiquei meio segundo a olhar a cena. "Desculpe, mas é engano, deve-me ter confundido com alguem." , e recuei, preparado ja para abandonar o local.

"Engano? Nao, nao. Eu reconheço sempre a cara de alguem que me indicam. Veja, é mesmo para si." , disse enquanto mostrava-me o envelope.

Vinha endereçado: "André Ferreira"

Agarrei a carta, e de repente ouvi uma voz dentro de mim a dizer: "CUIDADO, PODE TER ANTRAX!". Estupidez. Abri, e uma carta escrita em letra trémula (ou talvez apressada) preenchia toda a uma folha ja por si amarrotada. Quando me preparava para ler a carta, reparei que a senhora se tinha ido embora. Olhei em volta, e nao estava mesmo la. Confuso com aquela actuação toda, achei por bem ler a carta.

"André, André, André...

... Mesmo aqui em cima, obrigas-me sempre a ter que arranjar maneira de poder falar comigo. Ah, Vá lá, Ele ficou condecesdente. Riu-se e permitiu-me que passasse a arranjar maneira de continuar a falar contigo. Impossivel, mas é verdade. Agora ja deu para perceber que estás a descarrilar outra vez.."

Parei de ler. Achei que era alguma piada de mau gosto, mas depressa percebi, ao reler outra vez, que nao era. Tinha metido o código, o nosso "código indecifravel". Pedro estava de volta. Grunhi um "Nem mesmo depois de morto me vejo livre de ti", como quem ja sabia que ele estava ao meu lado. "Porquê?", perguntei em voz alta, "porque é que insistes em mexer-me na vida, em controlar-me, em falar comigo? Isto é completamente de loucos". E continuei a ler

"... E la tenho eu que vir falar contigo. Deixa-te de merdas, levanta a cabeça, és o André, nao és um ninguem. Chega, pára de te lamentares, a tua atitude desde a minha morte tem sido vergonhosa. Esperava que tratasses melhor a Cláudia, mas esqueceste-te tao depressa dela como de mim..."

Senti-me culpado. Sabia que tudo o que ele escrevia era verdade.

"... Não te lamentes, quando nada tens para te lamentar. Nao te queixes, quando nao há nada para queixar. Não desesperes, quando acima de tudo so tens é razoes para estar feliz. Sei que apenas estas linhas já te farão pensar.

Pedro

P.s.: Pareces uma criança a olhar para um mapa e a nao perceber o que lá está escrito. Há paradeiros que estão cruzados, que por mais que se queira, o caminho une-se num em dada altura. E no entanto, parece que estás sempre a perguntar: "Mas une-se mesmo? Tens a certeza?". Pensas demais.

P.s.: Isto cá em cima está a uma boa temperatura.

P.s.: Eles mandam abraços e beijos, agradecendo A música.

P.s.: Daqui a uns tempos voltarei a dar noticias"

Percebi que antes de tocar , antes de tudo, tinha que por a cabeça em ordem, e "levantar-me". Ha coisas ocultas inexplicaveis.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Into the wild



"Happiness is only real when shared."

Custou-lhe, mas percebeu :)

domingo, 9 de março de 2008

O bom samaritano

Em dois dias, podem-se fortalecer grupos, amizades, sorrisos, enfim...

Sexta feira, 19 h: Preparava-me para ir para Fátima com o Zé Maria, de autocarro. Iamos encontrar-nos com o restante Grupo de Jovens de Carnide (GJ), na casa do Bom Samaritano. Prometia ser brutal, mas revelou ser melhor que isso. Marcou.



A minha ideia e a do Zé era irmos dar com a tal Casa por nós próprios, sem dizer ao Frei Bruno, que era suposto ir buscar-nos à estação. E entao, às 9:30 da noite, num frio cerrado, pusemo-nos a caminho. Um taxista disse: "Muito facil: contorna a rotunda e sai na saida que diz Leiria. E depois é sempre ir em frente, nao tem que duvidar!". Mas na verdade a certa altura chegamos a uma bifurcação, e tivemos que ir bater a uma casa para saber aonde ficava o caminho certo. Enquanto esperavamos que a porta se abrisse, o Zé comentou: "So falta aparecer um gajo com um caçadeira a dizer: "FORA DAQUI, JA, OU EU DISPARO!"." Nao foi, mas ficamos sempre na expectativa que podia ter acontecido. O senhor que apareceu foi simpático, e lá demos com a parte certa da bifurcação.


Contudo as nossas "aventuras" nao paravam ali. Quanto mais avançavamos, mais longe ficavamos da real povoação, as casas escassavam, e via-se que nao estavam habitadas. A certa altura chegámos à "Casa de S. Francisco". Pensámos que era lá, e batemos freneticamente à campainha. Dado que nao respondiam, resolvemos continuar em frente. E a certa altura vimos ao fundo uma enormmeeee casa (mas mesmo grande), e uma seta no meio das silvas a dizer, apontando: "Casa do Bom Samaritano". Tavamos com fome e cansados da viagem, soube bem.



Batemos à porta. Abriu-nos a Irmã Ana, como viemos a descobrir que se chamava. Depressa apelidar-lhe-iamos de "Nossa Senhora", visto que falava e actuava de uma maneira que mais parecia ser a Mãe de Jesus. Entrámos numa sala, e lá estava o grupo todo: Frei Bruno, Tiago, Carlos, Ana, Rita, SaraF, SaraT, Teresa, Alex, e mais uma irma, a Irma Maria Jose.


Sentámos e começámos a ouvir a Irma Maria Jose a falar da casa aonde nos encontravámos. Eu pensava que era simplesmente uma casa de retiros, tal como outras tantas aonde ja tinhamos estado. Mas nao. E por isso é que o retiro passou a marcar. A Irma falava de "crianças", "muitas crianças", que eram felizes, que geralmente vinham de familias que nao tinham condições para acolher. Confesso que fiquei um bocado baralho. Mas afinal aquilo era um lar de acolhimento de crianças?


Mas tudo se complicou qd a irmã começou a falar de "crianças especiais". Que nao sabiam nao ser felizes. "Beeem, fazem disto um paraiso, caramba!", pensei. Até que a Irmã Ana passou uns slides de PowerPoint com imagens da instituição. Na minha cabeça fez-se um grande "AH, Ja percebi!".



Afinal a Casa do Bom Samaritano acolhia mulheres com deficiencias mentais. Tivessem elas 18 ou 34 ou 88 anos. Eram mais de 100 pessoas, entre funcionários e "crianças". Depressa percebi que o termo "criança" era bem aplicado. No fundo, como vim mais tarde a descobrir, o seu comportamente era igual à das crianças. No entanto, passavam a vida inteira nesse estado. Habitavam lá algumas Irmãs, da Divina Providência. Creio que foi estranho o enfase que deram à Divina Providência: a Irmã Ana começou por dizer: "Voces vieram cá por uma razao. Tudo aconteceu por uma razao. E Ele sabe qual é!". Estremeci. Eu e o Carlos ficámos um bocado entroalhados, como quem até tem medo de ouvir aquilo. Mas no final do retiro, ela ate tinha razao.


Fui jantar, com o Zé, e pouco mais se passou nessa noite. Fomos desde logo proibidos de nos encontrármos durante a noite com as raparigas, regra que sabádo à noite foi quebrada sem qualquer problema.



A noite de sexta passou-se a comer aparas de óstias. Sim, temos um fascinio por aparas de óstias, que é exactamente aquilo que sobra quando as ostias sao confeccionadas. Absolutamente divinal e viciante. Aliar isso a um quarto quente, e com uma boa conversa, e as horas prolongavam-se. O dia de sexta acabava.

Sábado. Relembro agora o que a minha namorada escreveu no blog vizinho: "Ha quanto tempo não rezo como deve ser,com tempo, sem pressa.". Sorri, pois era o que eu tinha sentido até sabado de manha. E era pena, pois quando foi o momento de nos retirarmo-nos, cada um para seu lado, sobe bem. As partilhas de reflexão tambem. Senti que afinal nao era só eu que andava a cometer o mesmo erro.



Á tarde fomos conhecer as Meninas. Foram emoções fortes, pois uma coisa é falar-se, outra é ver ao vivo. Foi uma sensação estranha, mas saí de lá melhor que ao que tinha entrado. Foi mesmo estranho, mas ainda assim volta a repetir a experiencia (até estamos a pensar voltar lá para fazer uma semanita de voluntariado, nao é malta? :P)

O dia passou-se sempre em grandes conversas, principalmente naquelas em que a Chica entrava, dando o seu habitual toque que nos deixava sempre com um sorrisao na cara, não tivesse ela uma maneira peculiar de ver a vida. 

Á noite fizemos uma reflexão bastante boa. Nunca tive numa oração que fosse má, creio que isso acaba por nao existir, mas sabe sempre melhor quando as pessoas que estão ao nosso lado sao As pessoas. No final da reflexão, fizemos algo que eu ja tinha feito algures noutro lado qualquer, mas que por mais que me tente lembrar, nao consigo: demos um abraço a toda a gente.

Talvez o que mais me impressionou foi o Carlos. Já la vao 6 anos (6 !...) em que nos conhecemos. Temos maneiras muito diferentes de ver a vida, mas respeitámo-nos sempre. Ao longo destes anos nunca houve momento algum em que desviámos a cara do outro, em que dissemos mal um do outro, porque isso é praticamente impossivel.



Carlao, lembras-te do retiro quando eu tava no 8 volume? Eras o MC Carlos, e até tinhamos o irmao da Leila, ja nao me lembro o nome, e outro gajo. Eramos estilo Jackson 5, mas só com 4, e um deles branco, eu! Ou lembraste de há 2 anos atrás, quando nos cruzámos com os frades de Varatojo, especialmente com o Frei Morgado, e eu tive que esconder-me o atrás de ti durante as orações ás refeições porque estava perdido de riso? Enfim.. Se contablizarmos as horas que vivemos isto tudo, sao poucas, muito poucas. Mas mesmo assim, suficientes para marcarem. Lembras-te dos "Los Duros"? Acho que "Man in Black" fica melhor... "Punts-ta-pa"! Enfim... ainda temos que saber por onde anda a Filipa, no fundo foi ela que deu origem aquela famosa frase: "Eu nao sei se é ela que está a tomar conta dos putos, ou se são os putos que estão a tomar conta dela!". Ou agora, na nossa ceia de Natal, quando a Sara foi contra o espelho da sala, porque achava que ali era a entrada. Enfim.. Acho que este retiro tem videos fenomenais, que nao poderei por aqui para nao denegrir a nossa (já por si reduzida) imagem.

Quando acabámos a reflexão, pediram-me para escrever uma Acção de Graças para a missa de Domingo. Era suposto fazermos em conjunto, eu pedi uns minutos so para fazer um telefonema. Quando voltei, tinha-me perdido nas horas: tinha estado 2 horas ao telefone, as raparigas ja se tinham ido deitar, e as aparas de óstia tinham acabado. Completamente ensonados, escrevi umas linhas no papel, e após consenso final, iria improvisar no final.



Domingo foi espectacular (Carlos, remember: "EPAH, NEM VAIS ACREDITAR! ACABEI DE CAIR NA BANHEIRA!" ... ... ... "epah, grande oceano que está aqui!"). A missa foi bastante boa, e as "Crianças" sabiam muitas orações de cor, e via-se que estavam concentradas (bastante mais que eu) naquilo que realmente se passava. Na Acção de Graças, acho que disse aquilo que realmente tinha que ser dito: Obrigado.


(ahahahhaahahhahahahahahahahahhahah. Nao resisti!)

O resto foi voltar para Lisboa. Vinhamos diferentes. Afinal a Irma tinha razao: quem saía de lá, nao saía igual. Foi uma realidade bastante diferente do custume, mas era preciso. Era preciso vermos com os nossos próprios olhos que temos razoes de sobra para sermos felizes. Parece, e é lamechas, mas é verdade. Acabámos todos por sentir o mesmo. Acabámos por sair mais fortes, nem que seja pelos laços que se fortaleceram naqueles momentos mais dificeis. Sabemos que vamos lá voltar, para ajudar. No fim de contas, o unico trabalho que eu la fiz foi por a loiça na maquina (e pensa uma pessoa que eu conheço: "Oh nao...!"), e eu prometi que fazia mais que isso!



O nosso Grupo de Jovens, ou GJC (Grupo de Jovens de Carnide), continua sem nome, e precisamos urgentemente de um. Os maiores disparates ja foram sugeridos ("Os pintainhos.."), portanto acho que qualquer sugestão é muito bem vinda.

Jesus, és o maior!



P.s.: "MAN IN BLACK!... ACTIVAR... POSIÇÃO!". Chica: "Oh meu deus, nao acredito que eles estão a fazer isto!"

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Dias indo...

Um chuto na pedra do caminho que se aproxima faz matar a monotonia do caminho.

De volta às aulas. De volta aquele mundo desumano. Mas desta vez é diferente: desta vez estou disposto a lutar!

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Lado (quase) Desfeito

Transportava o teclado nos braços, mochila às costas, vinha da Missa das Promessas dos Escuteiros. Bem interessante, por sinal.
Um aglomerado de gente formava uma roda, em frente à minha casa. Soltavam gemidos de susto, espanto, e uma ambulância virava a esquina a toda a velocidade. Intrigado com o sucedido, resolvi aproximar-me, lentamente, como quem dá mostras de nao se interessar no que se passa, mas de quem ao mesmo tempo lá no fundo pergunta "mas que raio..?".
Parei. Escandalizado.
Revejo. Outra vez. E outra vez.
E nao sabia o que sentir ou o que dizer.
Furei a roda, e sentei-me ao lado dele. Perguntaram-me: "Conhece?". Se eu o conheço? Mas claro. Era Pedro. "Meu irmao", disse. E um silêncio mortal pairou sobre as pessoas.
Pedro jazia em sangue, fruto de uma queda altissima. Morto? Mais que morto, completamente sem vida, sem hipotese de retornar, sem hipotese de salvamento.
O meu coração acelera atromentado, a cabeça anda meio à roda na ansia de ser um pesadelo, mas... Bolas!! Nao é!
Relembro um post que fiz aos tempos atrás, aonde ele tinha feito uma especie de "partida". Mas nao. Agora é mesmo sem aspas. Nao pode ser. Nao podia ser. Mas era...
Terei desmaiado. Acordei com um desconhecido a abanar-me, e a dizer: "Está aqui o INEM para o ajudar.". Ajudaram-me a subir as escadas até minha casa, no final disseram: "Ha alguem que nos devemos contactar?". Estarreci de novo. "Merda", pensei.
Cláudia. Tinha que ser eu a dizer-lhe. "Porquê?", pensava, "mas que raio te passou pela cabeça?". Fechei a porta, e ainda com a cara lavada em lágrimas percorri toda e qualquer especie de canto em minha casa à procura de uma explicação, de uma carta, nada.
Depois tudo se passou muito depressa. Avisar Cláudia tinha sido muito mau, e o funeral qualquer coisa de indescritivel. Sobre a campa de Pedro, a sua namorada mandara por: "Amou e foi amado."

Até me custava acreditar que era verdade. E mais uma vez perdida alguem de quem necessitava. E mais uma vez sem poder fazer uma despedida, um último abraço, um olhar de quem ja sabe que vai partir, nada.
Pedro foi-se.  Está algures em mim, o que resta dele, essa pujança e força incrivel que sempre me deu. Terei que procurar viver sem isso. Terei que procurar viver sem o meu Lado-Oculto.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Histórias que são para ser vividas…

... Sim, creio que há histórias que merecem personagens. Histórias de amor, que magicamos na nossa cabeça, e que sem nos apercebermos, ficamos envoltos nelas. E melhor de tudo, sermos nos as personagens das Nossas histórias.

... Não, nao devemos guardar as histórias no bau, mas expo-las na parede do nosso quarto, para ao acordar termos noção dos momentos felizes que já vivemos, e para termos consciencia de que mais virão. Porque histórias dessas merecem ser vividas. Mais que saber que não estamos sós, é importante saber que partilhamos histórias.

Abraço, Tiago!

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Palavras de sempre e para sempre

Faro, 14 de Fevereiro de 2007:

E ainda sinto os olhos cheios de lágrimas. Não só porque tu partiste, acho que graças aquilo que acredito isso era necessário para todos, mas porque vejo memórias como cada vez mais.. memórias. Vejo a familia em que eu vivia a desmontar-se, metade cá, metade aí. Vai chegando a minha vez (lentamente, muito lentamente), de ficar no topo da piramide, e de ser eu a olhar para baixo. Mas porque agora nao quero. Quero continuar a ser o mais novo, a olhar para cima, a nao saber o que é a morte ou morrer alguem de quem nos gostamos. Prefiro nao continuar a saber. Ainda te oiço, na tua voz trémula, a dizer: "É o André". Amanha vou preferir nao tocar em modo menor. Pelo contrário, se pudesse tocava algo simples, mas que soasse bonito e alegre. Foi assim que te conheci e sempre te vi, nao conhecia nada que nao fosse assim.
Deves ter ficada boquiaberta quando viste aquilo que eu depois tive oportunidade de saber que aconteceu. E ao mesmo tempo deves ter sorrido, comentado para aquela grande pessoa que está ao teu lado, e que nós sabemos quem é, : "Fenomenal!".
Tocar para ti daquela maneira parece-me tao pouco. Apetece-me voltar a atrás, ficar horas a ouvir as histórias que tinhas para contar, mas nao. Agora so me resta tocar, em modo menor, enquanto os olhos continuam a querer despejar rios. Vou crescendo. Vai olhando por nós, sff.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

...Obrigado pela chama que me queima!...

Caminhava lentamente. Vinha de uma manha de catequese e ensaio com os escuteiros.
De repente lembrei-me de uma música muito pouco cantada nas missas, mas que diz tanto. Chama-se "Obrigado", contem algumas frases bimbas, mas isso é indispensavel, claro!

Lembrei-me da letra, e aos poucos um sorriso ainda maior ia brilhando na minha cara, tentando competir com o sol que la no alto me cegava o olhar.

Não era um sorriso qualquer. Não era um sorriso daqueles que fazemos quando agradecemos quase banalmente. Não. É O Sorriso. O sorriso quando penso nela. Ahhhhhhhhhhhhhh, mas que energia! Ainda me lembro que durante o ensaio, lá no alto da Igreja, olhava de relance para ela e via-lhe aquele olhar. Já posso morrer feliz. Há coisas que são mais que inexplicaveis. Há coisas que sabemos que vem lá de cima ou la Dele. Ha momentos que marcam tanto que podiamos passar sempre a revive-los. Com ela estou cheio deles. Dizia uma parte da música:
Dá vontade de chorar :)
"Obrigado por esse brilho no ar. Por essa chama que me queima. Obrigado pela estrela que há em mim! Obrigado por essa mão que necessita... de outra mao que saiba amar e ser feliz!"

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Enfim

O país anda louco, isso é sabido, mas entre determinados niveis de loucura, parece que estamos a atingir um auge preocupante.

Creio que para os leigos da música isto nao deve estar muito divulgado, portanto acho que o pouco que eu podia fazer era transmitir esta informação:

Tem andado à baila nos ultimos dias uma enorme contestação contra o fim do regime supletivo nas escolas de música. Basicamente, todos os alunos que nao queiram viver da musica a full time (como quase todos os que frequentam as escolas de música, incluindo eu) vao porta fora das escolas oficiais, tais como Conservatórios e Gregoriano e outras tantas. No regime supletivo, os alunos tem a sua escola de música num horário compativel com a escola aonde andam, nao interferindo uma com a outra. No regime articulado, é suposto os alunos saberem desde logo (no momento em que passam para esse regime) que vao seguir musica (aqueles que estão no secundário), pois perdem uma data de disciplinas na escola, e as "oficiais" passam a ser as que teem na escola de música. Inconviniente? Se ao fim de alguns anos decidirem seguir algo que nao seja musica, tem que voltar a perder alguns anos a fazer as tais disciplinas que tinham ficado isentos.

Mas o problema é que a maioria (diria... 80% ? 70%? ) dos alunos das escolas de música frequentam o regime supletivo. E o que o Governo quer reduzir as escolas de música oficiais somente ao regime articulado. E lá temos que ir nos, esses tais, pagar balúrdios para escolas de música particulares, se quisermos continuar a seguir música.  

Há uma petição a correr na net: http://www.petitiononline.com/CFEEMP/petition.html  

Imagens como estas podem ficar em risco. Mas que miséria de governo.


(Coro Gregoriano do IGL, 2007, no Mosteiro de Alcobaça (mas que dia! :) ) . A manter-se a ideia da ministra, so ficaria ali o rapaz de azul, o Tiago, que actualmente está no regime articulado.)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Outrora

Era meia noite e nao conseguia dormir. Pedro dormia no quarto ao lado com a Claúdia, visita mais que frequente nesta casa. Fui ao quarto deles e, feito avô, puxei-lhes o cobertor que se encontrava estendido pelo chão. Agarrados um ao outro com força tal que até sorri ao ver a cena. Até a respiração se encontrava sincronizada. "Quem o viu e quem o vê", pensei ao olhar para Pedro.

Saí, fui até à varanda. À minha frente, grande parte do cemitério de Benfica. Nao me faz confusão nenhuma, até é ponto de reflexão. Por vezes dá-me a consciencia das gerações que passaram, e que eu agora faço parte tambem de uma. Da importância que temos agora na vida.

Continuava debruçado na varanda a pensar, quando me lembrei de repente de uma coisa que achei interessante. Há uns dias atrás, um jogador do Sporting, Vuckevic, disse que não gostava do futebol. Nao gostava de ver futebol (detestava, aliás), so gostava de jogar. Muitas pessoas ficaram chocadas, mas acho que entendi perfeitamente o que ele queria dizer. Porque eu detesto órgão. Não suporto estar num concerto de órgão, porque pura e simplesmente nao sou eu a tocar. Nao é egoncentrismo, não é por mal, mas nao consigo. Mexe comigo.

Pedro surgiu então, acordado de certo pela invasao que acabara de fazer ao seu quarto.

-Então irmao? Outra vez perdido nessa cabeça?

Não pude disfaçar, nao fosse ele o Lado-Oculto. Preferi manter-me calado, ao que ele disse:

-"Felizes os que nao vendo, acreditam".

Dito isto, saiu.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Sé de Lisboa

 
(Eu momentos antes do concerto)
 
Eram duas da tarde quando cheguei à Sé de Lisboa. Aproximei-me da imagem de Maria com Jesus morto nos braços, e acendi, como sempre faço quando lá vou, uma vela. Enquanto isso, o João fazia inudar a Sé ao som do enorme órgão.

O concerto era às 21:30, mas o dia prometia ser de ensaios. Antes de falar do concerto, apenas referir um pequeno episódio que aconteceu durante um ensaio que eu estava a ter com o meu professor:

O Joao tinha ido almoçar, eram 3 ou 4 da tarde, e assim o meu professor teve que tocar comigo a peça de Mozart a 4 mãos. A Sé esta aberta sempre que ensaiamos, apesar de 
algum desconforto (pelo menos para mim), de termos constantemente turistas a passarem, aponteram e tirarem fotografias. Por vezes até se sentam para ouvirem um bocadinho.
Quando acabámos de tocar, ouvimos umas palmas, o que é raro de acontecer. Mesmo que tivessemos tocado uma peça excelente, os turistas nunca batem palmas. Mas daquela vez, alguem estava a fazer um chinfrim desgraçado. Olhei para o lado, e vi que eram duas asiáticas.
Terminada a peça, resolvi ir falar ao Jorge, um colega do IGL que tinha acabado de chegar. Enquanto conversava com ele, uma das raparigas asiáticas aproximou-se de mim e enquanto abanava a cabeça em sinal de agradecimento, dizia-me em inglês: "Obrigado, muito obrigado pela vossa música, foi espectacular!". Gostou tanto que segundo consta, voltou para o concerto à noite. Como disse o meu professor, ja tinhamos fãs.

Quanto ao concerto em si, foi a loucura. Era o primeiro, mais uma vez, o público falava falava falava. 
Eu já estava sentado, 
preparado para tocar, mas as pessoas nao paravam de falar. A peça 
começava muito baixinho, e por isso 
era incomodo para mim estar ouvir as pessoas a falar
sinal de que se estavam a cagar completamente. Enquanto tocava a peça, estava completamente cheio de adrenalina. As maos tremiam desenfreadamente, e tinha que respirar muito mais frequentemente para nao perder o controlo de tudo o que acontecia, como muitas vezes esteve perto de acontecer.

Para uma dessas vezes eu tinha a minha arma secreta. Sabia que se quisesse, esse nervosismo todo podia passar. Tinha um preço: por momentos iria ficar desconcetrado do que estava a tocar, e isso podia ser perigoso. "Caguei", pensei. E numa das vezes que estava perto de perder o controlo, fugi da Sé e fui ter com ela. Ah, que sensação de alivio! Via de relance, o quanto bastasse para voltar e continuar a tocar. Assim aconteceu. O resto? Brutal. A peça nao correu extraordinariamente bem, mas as palmas e os "EEEEEEEEEEEH, BRAVO BRAVO BRAVO!" que recebi souberam muito bem mesmo.

Aqui fica o "video" do concerto, aconselho a irem fazendo outra coisa qualquer enquanto ouvem, porque ver... so se vê eu a mexer a cabeça de um lado para o outro.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Sábado à noite

Aceitei o convite com um sorriso. Convidavam-me para ir abrir o concerto da Missa da Coroaçao de Mozart, e nao recusei (tambem nao podia recusar..).

O concerto é este sabado, dia 19, com começo marcado entre as 21/21:30.

Ando em preparaçao mental. Passaram 7 meses desde o concerto passado, muitas coisas mudaram, mas felizmente as essenciais mantiveram-se.

Hoje estava a ensaiar na Sé, e senti o cheiro da nostalgia. De todas as emoçoes vividas naquela noite de Junho em que eu sabia que maior adrenalina era impossivel.

Desta vez vou tocar duas peças, uma delas sozinho. Uma delas vou estar entregue ao silencio de olhares postos em mim. Vou ser o unico a quem se permite fazer barulho naqueles instantes.
Sinto-me imensamente sozinho qd toco .. sozinho. Mas hoje foi outra vez diferente. No meu braço direito tinha um elástico que me teimava a dizer: "Vá, nao olhes para mim, olha para a partitura."

E eu sorria, inocentemente, como se nao entendesse o que isso significava.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Amanhecer


Pedro guiava o carro numa leve manha de Inverno. Claúdia dormecia no banco ao seu lado, e eu estava mergulhado na minha música do telemovel, no banco de trás.
Vinhamos da passagem de ano, iamos agora até Santa Cruz. Pedro olhou para mim e olhou para ela e disse:

-O essencial é totalmente invisivel aos olhos.
Percebi que ia outra vez ter uma palestra acerca do amor, mas antes disse ainda resmungei um "A frase do Princepezinho nao é assim...". Pedro pouco se importou, e continuou, para meu aborrecimento:
-O essencial é o sorriso que ela faz e que me deixa tambem a mim feliz, essencial é a voz que me acalma mesmo so quando diz ola, essencial é amar e ser amado pelo que Somos..., dizia, enquanto lançava olhares a Cláudia, que continuava a dormir.
Apesar da pausa que ele fez, eu tinha ficado apanhado pela aquela curta frase e continuei, dizendo: "Essencial é o abraço que me dá, e que sem o qual me sinto incompleto....".
Pedro riu-se, dizendo:

-Conseguiste atingir um nivel mais bimbo do que eu.
E voltámos os dois para os nossos pensamentos.
É mais um ano, e tenho tudo o que preciso para seguir em frente e fazer boa figura. Mais um ano de Ocultices, que tanto me ajudam a nao Ocultar-me dentro de mim. É Janeiro, tempo de amanhecer, deixar porcarias de pensamentos e preocupações para trás, e limpar a cabeça.
"Ela tem cabelos loiros, ele tem tesouros para repartir."

domingo, 30 de dezembro de 2007

Perspectivas para 2008

Este post é parelelo! O seu reverso está em Dedos Livres.

Quando me ia preparar para começar uma enorme lista das coisas para 2008, parei e gritei para o Pedro: "-Hey, Oh, Vem cá, oh anormal...". Temos uma maneira peculiar de falar, mas sempre assim foi.
Apressado, Pedro chegou e disse:
-Diz, depressa, vou ter com a Cláudia.
Cláudia?, pensei. Afinal ja estava tudo resolvido. O perdão e o amor falaram mais alto que outra coisa qualquer. Um post que ficou oculto, nem era preciso expo-lo. Era bom saber que tinha ficado tudo bem.
-Era so para saber, o que é que tu queres para 2008, perguntei.
Muito rapidamente ele respondeu:
-Paz e amor.
E dito isto, saiu que nem uma seta, em direcção ao seu quarto. Passado 5 segundos, gritou:
- E TAMBEM UMA BICICLETA, SE PUDER SER!
Ok, percebi que nao valia muito a pena contar com qualquer sugestao dele. Elaborei, entao, a minha lista para 2008:

-Continuar com a minha namorada.
-Aprender a escrever em português (por vezes escrevo numa lingua qq parecida com a nossa, mas que nao é a nossa.)
-Fazer parapente.
-Fazer snowboard.
-Nao deixar cadeiras do IST para trás.
-Tocar num concerto na Sé de Lisboa a solo.
-Ser um catequista decente.
-Aprender as musicas do Michael Bublé, para depois quando o pianista dele se lesionar, eu possa substituir.
-Gostar um pouco mais do curso em que estou.
-Arranjar paciencia para aturar o ambiente desse curso.
-Desenjoar de algum enjo que tem aparecido em relação à Matemática.
-Ser convidado para ir tocar a missas.
-Ser pago para tocar em casamentos (epah, mas esta tem mesmo que se repetir :P )
-Arranjar uma afilhada e ser um bom padrinho.
-Ter paciencia para começar a escrever um pouco mais decentemente as histórias ocultas de Pedro ( que embora apareçam em posts soltos, tem um seguimento )
-Ir acampar mais vezes com o Grupo de Jovens ( e arranjar um nome decente para o mesmo).
-Ir a um concerto qq dos Coldplay, RATM, MB, FOB.
-Continuar envolvido no projecto da AE do IGL.
-Continuar a dar catequese à malta a quem estou agora a dar.
-Ter mais presente a noção de que com calma tudo se resolve.
-Ter fé.
-Chegar ao final de 2008, olhar para a lista e sorrir, porque ou grande parte foi feita, ou entao surgiram coisas que me esqueci de por na lista mas que até deram jeito!

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

André

É nestes dias ( logo neste, é incrivel... ) em que tudo nos corre mal, desde o momento em que pomos o pé fora da cama, que preciso de me relembrar de algo para me animar. Urgentemente.

E quem mais para me ajudar nessa tarefa do que o pequeno André. Ele chega. Passo a contar a história, totalmente verídica, que me faz sorrir mesmo quando as coisas teimam em correr mal. Porque esta história vai durar para sempre, e apesar de eu nem ter filhos ( e de, sinceramente, nao me ver a te-los. Assim poupo o trabalho do Natal. Vá, estou a brincar.. ), sinto que ja passei um legado, um nome, uma história, uma recordação.

A mãe do F. e o G., que sao ambos meus catequisandos do 2ºVolume, estava grávida. O bébé acabou por nascer no decorrer do ano passado lectivo, erro meu nao saber a data, mas creio que foi entre Fevereiro... e Maio!

Um dia, a senhora apareceu para ir buscar os miudos, como todos os Sábados de manha. Trazia consigo o bébé. Dizem que há bébés bonitos e feios, para mim é tudo igual. Alguns mais gordos ou mais magros, mais sorridentes ou mais choroes, mas na verdade aquele bébé eu iria achar o melhor do mundo.

Quando lhe perguntei o nome, a mae respondeu: "Chama-se André!". Olhei surpreendido, "que coicidência", pensei. E disse-me ainda a senhora: " E sabe porquê? Perguntámos, eu e o meu marido, ao F. e ao G., que nome queriam dar ao bébé. E eles disseram: André. Por sua causa!". Eu olhei estupefacto, mas insistiu: "Sim, é mesmo verdade!".

Olhei para o André com outros olhos. Olhei-o, vendo a marca de quem eu sou. Porque, para a toda a vida, carrega o meu nome. E se alguem, uma vez, tiver a curiosidade de lhe perguntar o porquê do nome, saberá, de certo, dizer: "Era um catequista dos meus irmãos!". Estranho. Mas sei que é por isso que tenho continuar a caminhada que estou a fazer, independentemente dos altos e baixos, para quando o André poder contar a história do seu nome, o faça com um grande sorriso na cara.

E sei que nao te vou desiludir. A ti, André, que sem saberes, tens comigo uma ligação tao grande.

sábado, 22 de dezembro de 2007

Conto de Natal

Nunca me quis aventurar por este caminho: Escrever. Mas como tenho lido ultimamente, nao sabemos o resultado se nao arriscarmos. Fica aqui entao uma pequena história, imaginada em 5 minutos, depois de ter visto a pessoa em questão.


"

Tempos frios. As mãos congelam, andar na rua torna-se impossivel. Era noite de dia 23. Algures numa caixa de um supermercado, um senhor preparava-se para pagar. Usava um gorro sujo, assim como toda a sua roupa, gasta pela idade. Trazia consigo uma mochila às costas. Apenas comprava um garrafa de vinho e pouco mais. Pagou, e saiu lentamente do supermercado. Tinha que aproveitar os últimos momentos de algum conforto, para preparar a caminhada até casa.


Dezenas de pessoas cruzavam-se com ele, com uma pressa infernal de quem tem alguem à espera em casa. E entao lembrou-se que a senhora esperava tambem por ele. Fazendo um suspiro, pos-se a caminho.


O frio era aterrador. O seu casaco, gasto, ja pouco protegia do vento, e a chuva parecia teimar em querer cair.


Dezenas de carros passavam por ele, sem pressa. Lá dentro, as pessoas faziam sorrisos, cantavam, falavam... Era Natal! E entao lembrou-se que a senhora esperava por ele. Nao se podia atrasar.


O senhor vivia numa casa distante da cidade. Era um local onde os carros nao passavam e as luzes nao brilhavam. Nao tinha quartos, era muito simples. Abria-se a porta, e estava-se em toda a casa. A um canto, via-se com colchão com alguns lençois em cima. Noutro, uma pequena lareira fumegava, nao sendo suficiente para aquecer a casa.


A senhora levantou a cabeça quando o viu entrar, e sorriu:
- Entao, conseguiste alguma coisa?



O senhor posou a sua mochila, fez outro suspiro de alivio. Era bom estar em casa. Na sua casa.


- Trouxe-nos uma garrafa de vinho e alguns ingredientes para ajudar à nossa ceia de Natal.


A senhora riu-se. Ceia de Natal. Todos os anos, a ceia de Natal era uma mistura de saladas com algo mais requintado. Todos os anos, rezavam para que na próxima Ceia de Natal pudessem comer bem e estarem aquecidos. Todos os anos.


- Vamos dormir, disse o senhor. Amanha tenho que ir ver se arranjo mais qualquer coisa, quem sabe se nao é desta que comemos algo melhor!


Deitados no colchão, agarravam-se um ao outro na ansia de conseguirem o único calor que podia haver.. humano.


Frágil e com a idade a fazer-se sentir, a senhora precisava muito de descansar. O senhor esperou que ela fechasse os olhos, para tambem poder dormir. "Amanha é outro dia", pensou alto,"E vai ser amanha que vou conseguir encontrar algo para podermos comer decentemente. Enfim... Seja o que Deus quiser!". E vendo que a senhora ja dormia, pode descansar, finalmente.


Dormiam com um sorriso. Apesar de tudo, estavam juntos, e tinham a fé de que um dia poderiam estar numa Ceia de Natal.


Não sonhavam com mansões, com riqueza, com dinheiro. Não. Apenas sonhavam que um dia, poderiam estar sentados numa mesa, a sorrir ainda mais, e reconfortados para dizerem: "Feliz Natal!".


De súbito, o senhor acordou. A senhora continuava abraçada a ele, mas havia qualquer coisa de estranho. Olhou para onde estava deitado, e reparou que nao era o seu colchão. Era uma cama, grande, com muitos cobertores. Estava muito bem aconchegado. Nao fosse a estranheza da situação, teria ficado ali deitado, sem se mover.


Endireitando-se na cama, teve um enorme susto. Encontrava-se rodeado por muitas pessoas. Eram 10 pessoas de cada lado da cama, e em frente uma só pessoa. Sorriam para ele, mas nada diziam. O senhor beliscou-se, entao, para perceber se estava a dormir ou nao. Mas alguem lhe disse: "Deixa... isto é mesmo verdade!".


Abraçou a mulher com mais força, de tal modo que tambem a acordou. Sobressaltada, ela perguntou-lhe:
- Quem é esta gente toda?



O senhor nada dizia. Contudo, começou a olhar para as caras de cada uma, e riu-se. "Nao... vá, vamos lá acabar com este sonho.", pensou. Tinha reconhecido que as 20 pessoas que rodeavam a cama eram da sua familia, e tambem da familia da sua esposa. Mas no entanto, tambem sabia que essa gente toda ja tinha partido para o céu.

Só a pessoa do meio é que ainda lhe era desconhecida. Tinha barba, cabelos longos, um manto de purpura vermelho, era jovem. Foi a mulher que acabou por perceber, dizendo:

- Meu Deus!


E todos se riram da situação.

- Vá, tudo a ir-se embora. Quanto aos senhores, temos mais lugares na nossa Ceia de Natal. Quando quiserem, a mesa já está posta! disse o jovem de manto de purpura.

Ainda incrédula, a senhora responde um baixinho: "Obrigado Jesus!", ao mesmo tempo que o senhor, com um sorriso, afirma: "Sempre pensei que os anjos tinham asas!"

"




sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Reencontro-me

Tempos de Outono. O Natal passa-me ao lado.

O Natal de criança já se foi. O dia havia de chegar, eu sabia-o, mas é sempre estranho.
Lembro-me de chegar a casa dos meus avós e perder-me na alegria que era o reencontro após o verão, apenas 4 meses, que para crianças parece uma vida. O vermelho do Natal estava bem patente, eu conseguia "cheira-lo". Eram dias passados ansiosamente, tendo em vista aquela noite com toda a gente reunida.

O Natal de criança já se foi. Agora estou eu, em Dezembro, sem magia nenhuma. O André, aquele de 6 anos, puxa-me pelo robe e pergunta-me: "Já compraste algum presente para mim?". Eu sorrio. Apenas lhe digo: "Tenho andado ocupado, mas eu prometo.". Mal ele sabia que ja o tinha feito. Numa noite, antes de me deitar, escrevi numa folha aquilo que me vinha da cabeça. Um papel. Só isso. Contudo tinha tudo aquelo que eu "desejava", e abri-la-ei na noite de Natal. Um presente de mim para mim. Há certas alturas em que temos que ser um pouco egocentricos, pensei.

Enquanto escrevia isto, Pedro chegou. Vinha com um enorme sorriso, e eu sentia que mais alguem subia as escadas com ele.

"André?", chamou-me, "olha, trouxe-a comigo.", disse-me. Foi uma maneira um bocado estranha de apresentar a namorada, mas enfim... nem o nome acabei por saber.
Era de baixa estatura, morena, com um olhar muito cerrado. Os cabelos castanhos constratavam com a barba de Pedro, era estranho. Fez uma pequena vénia estilo séc.XVIII, e nao pude deixar de sorrir. Disse-me olá, e a sua voz ecoou. Era suave. Combinava em tudo com Pedro, interessante, pensei.

Meio bruscamente, virei-lhes costas e continuei a escrever, enfiado em papeis e papeis, o tempo nao permite outra coisa. Pedro percebeu. Veio ter comigo, e disse-me:

"Nao desistas. Ja faltou tanto. Ja foi tao pior. Um ultimo esforço..". Nao fosse a presença da sua namorada, e certamente teriamos tido uma enorme discussão, mas ele tinha razao.

Passado alguns minutos, desci as escadas, e na porta tinha um post-it de Pedro, escrito: "Lc 8, 22". Apeteceu-me amachucar o papel, farto daquelas frases sem nexo nenhum, com passagens da Bíblia em vez de conselhos práticos e eficazes como sempre fizera. Apeteceu-me, mas nao o fiz. Foi ler a passagem, fechei a Biblia, e reencontrei-me. Aos poucos. Mas vou-me reencontrado. Esse André que andou desaparecido após tanto tempo, com a brusca entrada na faculdade, vai-se encontrado. Mas o Natal, esse há-de sempre pertencer à criança. E ainda bem, é bom recordar memórias bem vividas. Amen.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Obrigado

Depois de uma venda desastrosa de jornais na missa dos escuteiros, o animo era pouquissimo. Domingo nao prometia ser um dia bestial, bem pelo contário, prometia ser uma besta. Contudo a minha falta de fé mais uma vez desmontrou que ha Algo a mais que isso. Ja Alguem me tinha dito, nessa noite de sabado: "Nao te preocupes, vai correr tudo bem!". Por mais que quisesse acreditar, era impossivel.

Levantei-me bem cedo. O dia prometia ser longo. Ás 9:30 estava na Igreja de São Lourenço. Dirigi-me à sacristia, aonde eu esperava que estivesse o Padre Jorge. Afinal nao, era a vez do P.Filipe. Recebeu-me com um sorriso e perguntou-me ao que eu vinha. Expliquei-lhe a situação do Afonso, e a razao da venda dos Jornais da Catequese. Ele ficou muito baralho, e pediu-me para, na acção de graças, eu ir lá falar à frente.

Nao fiquei ansioso nem com medo. "Quem toca para 'multidoes', tambem sabe expor decentemente o problema para uma igreja cheia", pensei. Enquanto esperava ansioso a chegada da Andreia com os jornais, o tempo passava. A acção de graças aproximava-se, e jornais, nada. Meio baralhado, dirigi-me para o ambao quando terminou a comunhão. O Padre Filipe fez uma pequena introdução.

Enquanto isso, fitei as caras das pessoas. Era tudo gente idosa, cabisbaixos, acompanhando de certo o tom pobre e lento das musicas, embora cantadas com fé de quem so tem olhos para Ele. O P.F. passou-me a palavra. Eu estava debruçado sobre o ambao, e resolvi falar, decidido.

Comecei por falar do jornal, do propósito da venda desta edição, e depois tive uma frase que saiu e surpreendeu-me: "Podia ser eu, o meu irmao, o teu filho, o teu neto, não é. Saibamos dar graças a Deus por isso, mas saibamos tambem ajudar quem precisava.". Terá sido a formula para o P. Filipe voltar a falar.

Chegando-se perto do ambao, revelou-se: "Dizem que os jovens nao fazem nada? Aqui teem. Dizem que nao sao activos? Pois eles aqui estão. Ainda no outro dia vi imensos a participarem no Banco Alimentar Contra a Fome, de voluntariado. Onde estao os jovens que nao fazem nada? Devemos todos dar um euro, contribuir para esta causa, que sabemos que será entregue em boas maos!". Eu continuava no ambao, com um sorriso incredulo do que acabava de ver. E do que acabava de ouvir: enquanto o P.Filipe falava, ouvia-se o tilintar das moedas que as pessoas começavam a procurar no bolso.

Terminei o discurso, cheguei lá fora e estavam a Joana Marto e a Andreia, sorridentes, com os jornais na mao. Quando a missa acabou, foi a loucura. Toda, mas toda a gente que esta la dentro insistiu em dar dinheiro, as notas de 5 pareciam que choviam, a mensagem que queriamos transmitir nao podia ter sido dada da melhor maneira. Nao é de admirar que tenhamos os 3 ficado comovidos. As pessoas passavam por nos, davam o dinheiro, recusavam o jornal e ainda diziam: "Boa sorte para o rapaz, e bom trabalho!". E nos diziamos..: "Obrigado!"

Estavamos parvos. De tal modo que quisemos voltar a repetir a receita no Seminário da Luz. Era justo, nao era por nos, era por alguem que precisava. Mas aí tive outra vez receio. O Seminário da Luz era outro "estatuto". Por isso pedi ajuda a quem sabia que me podia ajudar: F. Albertino. Impecavel, la estava eu à hora combinada para falar. Fui menos agressivo, mas voltou a funcionar. Os jornais que eu levava esgotaram-se duas vezes, e era curioso ver pessoas que ja tinham comprado o jornal no dia anterior (sabado), voltarem a comprar.

No final, ja nao tinhamos quase mais jornais, e ainda faltavam duas missas. Tinha que ir para casa, embora ainda fosse a tempo de ver os sorrisos nas caras dos Nós, que diziam "Obrigado", incessantemente. Sorri tambem. Afinal, estavamos todos unidos por uma causa.

Foi para casa com a sensação de que metade do dia estava cumprido. Faltava a outra, e a mais decisiva.

Tinha sido convidado há umas semanas atrás para ir tocar a Alverca. A ideia era eu abrir o concerto com uma peça para orgao, e acompanhar o coro nas duas ultimas. Aceitei, sem olhar a datas, e sem olhar ao que eu tinha que tocar.

Foi uma optima expriencia. Era o meu primeiro concerto em que estava envolvido, nao sendo com ou atraves do IGL. Soube bem. Foi uma longa tarde de ensaios, mas nada soube melhor do que perto das 6 tarde, sentar-me dentro da sacristia numas cadeiras muito confortaveis que para la haviam, enquanto o coro ensaiava. Era o descanso de semanas, sabia bem. Nao tinha que fazer nada, soube bem.

O jantar passou-se, chegava a altura do concerto. Mais uma vez nao estava nervoso. Seria do publico, que nao era decididamente o mais entendido na matéria? Ou seria porque... ? Foi porque. Quando o concerto começou, fui sentar-me ao orgao. Tinha os olhares todos fixos em mim, mas passou-me tudo sem me incomodar. Ao meu lado tinha a Laura, que iria virar as páginas. Sentei-me, parei, baixei a cabeça, e os oculos iam caindo (estao a precisar de uma afinaçaozita!). E quando comecei a tocar, consegui sentir a musica outra vez. Era uma sensação rara. Até que, consciente e seguro do que estava a fazer, lembrei-me de Alguem. E um grande sorriso apareceu na minha cara. Tudo estava a correr bem, mas porque alguem tinha acreditado mais em mim, do eu próprio.

Quando parei, soaram as palmas. Com um sorriso, esbocei um "obrigado", e sai. Voltei, minutos mais tarde, para acompanhar o coro. E quando estavamos todos reunidos a agradecer as palmas, depois de termos empurrado o (grande!) maestro para ser ovacionado, empurraram-me tambem a mim, para frente daquela gente toda, para ser aplaudido outra vez. Agradeci, mas agradeci mais, muito mais, a esse Alguem, que insiste em marcar o meu caminho, mesmo quando ja por vezes eu nem acredito em mim.

Um Domingo fantastico. Obrigado!