quinta-feira, 3 de abril de 2008

Paradeiros Cruzados

Sei agora que não é anormal. Mas surreal.

Enquanto esperava lentamente que me levassem de boleia para a minha escola de Música, o sol começava a aparecer, mas ninguem ainda tinha a coragem de passear nas ruas. Ao som de uma música qualquer, e enquanto fixava os olhos no chão, e a minha cabeça continuava desligada pelo sono, alguem se chegou perto de mim.

Uma idosa, pobre, estendia-me a mao com um envelope lá dentro.

"É para si", disse ela

Estupefacto, fiquei meio segundo a olhar a cena. "Desculpe, mas é engano, deve-me ter confundido com alguem." , e recuei, preparado ja para abandonar o local.

"Engano? Nao, nao. Eu reconheço sempre a cara de alguem que me indicam. Veja, é mesmo para si." , disse enquanto mostrava-me o envelope.

Vinha endereçado: "André Ferreira"

Agarrei a carta, e de repente ouvi uma voz dentro de mim a dizer: "CUIDADO, PODE TER ANTRAX!". Estupidez. Abri, e uma carta escrita em letra trémula (ou talvez apressada) preenchia toda a uma folha ja por si amarrotada. Quando me preparava para ler a carta, reparei que a senhora se tinha ido embora. Olhei em volta, e nao estava mesmo la. Confuso com aquela actuação toda, achei por bem ler a carta.

"André, André, André...

... Mesmo aqui em cima, obrigas-me sempre a ter que arranjar maneira de poder falar comigo. Ah, Vá lá, Ele ficou condecesdente. Riu-se e permitiu-me que passasse a arranjar maneira de continuar a falar contigo. Impossivel, mas é verdade. Agora ja deu para perceber que estás a descarrilar outra vez.."

Parei de ler. Achei que era alguma piada de mau gosto, mas depressa percebi, ao reler outra vez, que nao era. Tinha metido o código, o nosso "código indecifravel". Pedro estava de volta. Grunhi um "Nem mesmo depois de morto me vejo livre de ti", como quem ja sabia que ele estava ao meu lado. "Porquê?", perguntei em voz alta, "porque é que insistes em mexer-me na vida, em controlar-me, em falar comigo? Isto é completamente de loucos". E continuei a ler

"... E la tenho eu que vir falar contigo. Deixa-te de merdas, levanta a cabeça, és o André, nao és um ninguem. Chega, pára de te lamentares, a tua atitude desde a minha morte tem sido vergonhosa. Esperava que tratasses melhor a Cláudia, mas esqueceste-te tao depressa dela como de mim..."

Senti-me culpado. Sabia que tudo o que ele escrevia era verdade.

"... Não te lamentes, quando nada tens para te lamentar. Nao te queixes, quando nao há nada para queixar. Não desesperes, quando acima de tudo so tens é razoes para estar feliz. Sei que apenas estas linhas já te farão pensar.

Pedro

P.s.: Pareces uma criança a olhar para um mapa e a nao perceber o que lá está escrito. Há paradeiros que estão cruzados, que por mais que se queira, o caminho une-se num em dada altura. E no entanto, parece que estás sempre a perguntar: "Mas une-se mesmo? Tens a certeza?". Pensas demais.

P.s.: Isto cá em cima está a uma boa temperatura.

P.s.: Eles mandam abraços e beijos, agradecendo A música.

P.s.: Daqui a uns tempos voltarei a dar noticias"

Percebi que antes de tocar , antes de tudo, tinha que por a cabeça em ordem, e "levantar-me". Ha coisas ocultas inexplicaveis.

1 comentário:

Ana Macedo disse...

Oh ressuscitaste o teu lado oculto! =D
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