sábado, 30 de maio de 2009

Amanha

post da minha autoria retirado do blog da Associação de Estudandes do IGL

"Check", pensei, no final de mais uma ronda.

Subi ao meu quarto. O pessoal ja está todo a dormir. Lá em cima oiço barulho. Gritos. Jogos de pepe rápido que estão por terminar.

Amanha é mais uma audição. Sente-se o cheiro quente de Verão, dormimos com janelas abertas e estores corridos.

Sento-me. Os gritos continuam, soltam-se risos. Oh! Aquele é o da Laura, inconfundivel, como sempre. Vinha de fazer o Crisma. O riso parecia mais branco e puro que nunca!

Amanha é dia de Educação Vocal para mim. O cansaço ja pesa. Vou-me deitar com um suspiro profundo de quem passou um dia a trabalhar, e nao foi para a musica. Sinto falta, portanto.

Chiu. Alguem bateu à porta.

Espero.

Espero que alguem insista. É que nao me está a apetecer levantar, estou cansado.

"André", ouvi. "André, estás aí?", perguntava uma cabecinha que espreitava, a medo, para dentro do quarto.

Nao respondi. Desculpem o egoismo, surgiu do cansaço. De repente oiço..

.. um fungar de nariz..

.. e vejo a pessoa a levar as maos aos olhos e a soltar um soluço..

Levanto-me num àpice. Tronco nu, nao me queria vestir, fui directo à porta. Abri.

Timida, a criança levou as maos à cara e desatou a chorar. Reconheci.

"Joao, Joao, anda cá", disse. Baixei-me. Agarrou-se a mim e continuou a chorar que nem "uma Maria Madalena".

O Joao ainda é novo. Entrou este ano para o Gregoriano. Duvido que estivesse a chorar por saudades dos pais.

Acalmou-se. Limpou as lágrimas.

"Entao, agora queres contar o que se passa?"

Joao sentou-se. Queria contar mas tinha vergonha, eu notei.

"Vá, ja percebi. Envolve raparigas?"

Abanou a cabeça em sinal afirmativo.

"André... (Soluço)... Ela está a namorar com outro, nao gosta de mim", e dito isto, desata de novo a chorar.

Quis rir-me. Juro! Contive-me a tempo. E quando voltei a mim depois daquele momento, pensei na amargura, ainda criança, daquelas lágrimas. Lágrimas Gregorianas, de certo.

Levantei-me, deu-me a mao e seguiu-me. Ele vinha sempre a chorar. Fui ao quarto dele, vasculhei na secretária e encontrei as partituras dele. Peguei no violoncelo dele, e descemos até à sala de orgao.

Ele sentou-se, limpou as lágrimas e ficou a olhar para mim.

"Joao! Em vez de eu estar aquilo no bla bla bla e dizer-te que ela nao te merece (o que eu acho que é verdade!), vamos fazer algo.. Musica!"

Pausa. Olhar curioso.

"Musica, André? A esta hora? Nao consigo.. So penso nisto."

Nao liguei. Procuro alguma peça que ele esteja a tocar. Modo menor!

"Esta, pode ser? Sabes de cor?"

Olhou. A cara estava vermelha do choro, mas a musica nao chama horas, nem pessoas, nem idades, nem tempos..

Sentou-se, tirou o violoncelo. Apoiou o espigão. Deu umas arcadas. Afinámos.

Sentei-me ao orgao. Puxei os registos. Fiz uns acordes. Afinámos. Desta vez, sentimentos.

E antes de tocarmos, disse:

"Sente o quão triste estás. Agora toca a peça como se ela fosse um enorme desabafo a tudo aquilo que sentes."

Joao nao pestanejou. Foi forte. Pegou no arco. Respirei, comecei, ele entrou..

..Triste..

.. e triste continuava...

E dei por mim, as lágrimas corriam-me o rosto. Talvez de alegria por tanto talento, talvez pela tristeza dele me percorrer a alma.

Acabámos, e ficámos em silencio. Olhei para ele, e ao ver-me chorar, deixou escapar um ligeiro sorriso.

"Agora que me acabaste de fazer chorar, vamos a uma peça para nos alegrar?"

Sim, disse. Pegou rapidamente numa. Era aquela.

Tocámos. E o sentimento, ao mudar, mudava a sala. A cor. Nao ouvem? Cada nota pareciam 3. Cada 3 pareciam 1000.

Quando acabámos, arrumámos e subimos. Sao horas de deitar.

Em jeito de brincadeira, como costumo fazer, peguei nele estilo saco de batatas, e levei-o ao quarto. Ja soltava gargalhadas.

Pu-lo na cama. Lembrei-me do episodio das gemeas. Talvez agora nao fosse preciso, ele era mais velho.

Quando me levantei da cama, agarrou-me o braço e perguntou:

"André, se fosse contigo, que farias?".

Estremeci. Vacilei. Arrepiei-me.

"Nao sei. Mas fica combinado: se me acontecer, eu venho ter contigo!", e soltei um piscar-de-olho cumplice, próprio de nós dois.

A idade separa.

A música nao.

2 comentários:

Ana Macedo disse...

Nem mais! Música seria, decerto, o ideal a fazer =P

Gostei das "Lágrimas Gregorianas" lol

beijinhos***

Tiago Krug disse...

És profundamente belo meu irmão...