sábado, 24 de outubro de 2009

Desabafos

Entrei de rompante. Respiraçao rápida.

Jesus ali estava, na sua secretária, na mesma sala onde outrora eu ja estive.

Pernas esticadas, olhar concentrado, na sua mao tinha o livro de José Saramago. E nao, nao era "Caim". Era o "Memorial do Convento".

O meu olhar surpreso nao passou despercebido.

"Diz, André!", Pediu-me.

Meio atrapalhado com a ironia da situaçao, balbuciei:

"Mas... vinha-Te desabafar acerca do livro..."

E ainda antes de eu acabar a frase, Jesus fechou o Memorial, endireitou-se na cadeira, olhou seriamente para mim e disse:

"Vens Me perguntar se acho bem ou mal, se fico ofendido ou nao..."

Inclinei a cabeça em sinal de aprovaçao. Estendeu a mao para a cadeira, numa especie de convite para sentar. Depois continuou.

"Tens que aceitar, André. É liberdade...!"

"Mas nao é abusivo? Quer dizer, as pessoas dao a desculpa que ele é Nobel, entao nao deveria ter mais cuidado com o que diz?"

"Imagina um grande musico. Ou um grande matematico. Agora imagina que ele vai ter que dar um espectaculo ou seminário. Quando chega a hora, enfrenta o publico, manda dois arrotos para o ar.. É por ser reconhecido que pode fazer isso?"

"Eu acho que nao..."

"Pronto, deixo-te com esta para reflectir. O escandalo é enorme, mas nao vale a pena! Olha, até mais pessoas teem lido a Biblia, sabias? Pode ser que ajude a conhecerem-Me melhor!"

10 segundos de silencio. Percebi a mensagem. Levantei-me. 

"André...", Disse-me, "... nao te esqueças que muda a hora!"

E com uma gargalhada, sem respiraçao ofugante e muito menos sem duvidas, abandonei a sala.

7 comentários:

Anabela disse...

Ahh! Obrigada por me lembrares da mudança da hora!! Por acaso achei esquisito ter visto, na primeira vez, o telemóvel marcar 1h48m e, tempos depois, olhei as horas e marcava 1h13m... Confesso que tive uma leve sensação de que estava a enlouquecer... mas depois convenci-me de que tinha visto mal da primeira vez!!
Há tanto tempo, André! Que saudades dos teus diálogos com Jesus! Sabes, comecei a ler o Memorial do Convento, mas não terminei (ainda!) por isso, ainda não tenho uma opinião para partilhar, mas a minha irmã leu-o, na altura da faculdade, e ela gostou muito! As histórias dele são uma mistura de fantasia com alguma documentação histórica. Mas são apenas histórias, ninguém tem que acreditar nelas... tal como as crianças que vêem desenhos animados violentos e, não é por isso que os vão repetir!... assim o deveria ser!
Jesus deve ter ficado encantado com a tua preocupação, pois estavas a defendê-lo, mas também te quis mostrar que o importante é zangares-te com o mal, e não com a pessoa que o faz! E que, se Ele é acima disso, está dar-nos o exemplo e a mostrar-nos de que não temos que ter sentimentos negativos porque ninguém o merece!
Um beijinho por esta tua história!! ")

Anabela disse...

E, por favor, o senhor saramago acha que deviamos pertencer a Espanha!... Portanto, who cares com o que ele pensa!!...

João Pedro disse...

Ora bem... Já sabes a minha posição quanto à religião: cada um tem direito a professar a religião que quiser, não há religiões "certas" nem "erradas", "verdadeiras" ou "falsas" - é uma questão de fé de cada um...
Se o Saramago acha que o deus da bíblia é um deus rancoroso e malévolo, tem todo o direito de o escrever se quiser. Quem quiser lê o livro, quem não quiser não lê. Não há, legalmente, nada que impeça que tal coisa seja publicada em Portugal (embora em 91 tenha havido aquela coisa toda com o Evangelho segundo Jesus Cristo - a meu ver, uma idiotice pegada por parte dos nossos governantes)...
Cada um tem direito a expressar a sua opinião. Se o Saramago julga deus assim, tem todo o direito de o fazer pois aquilo em que ele acredita não corresponde àquilo em que acreditam os católicos. Porque é que as pessoas religiosas ficam tão chocadas quando vêem uma manifestação de alguém que não acredita no mesmo que eles? Nunca pensaram, por acaso, que nós (não-crentes) também nos sentimos incomodados quando vemos manifestações religiosas de algo em que não acreditamos?
Acho que, acima de tudo, é necessário haver tolerância. Os não-crentes não têm de ir à missa nem sujeitar-se a manifestações ou interpelações religiosas, assim como os religiosos não são obrigados a aceitar os pontos de vista dos não-crentes ou a ler os seus livros.
Já não sei quem foi, mas alguém me disse um dia "tu és mais católico que muitos de nós"... Compreendi esta afirmação no sentido de que tento reger a minha vida por certos valores que são defendidos pela religião - aliás, pelas várias religiões! Mas isso não faz com que eu acredite em deus. Faz de mim, apenas, um ser humano. É tudo uma questão de acreditar - tu acreditas, eu não acredito. Isso não faz de nós pessoas melhores ou piores. Apenas diferentes - mas iguais...
Lembras-te de ler "O Cavaleiro da Dinamarca"?
Lembras-te de quando Pero Dias combateu contra um nativo em África e o feriu com a espada?
Lembras-te do que disseram os marinheiros quando viram o sangue?
"O sangue deles é exactamente da mesma cor..."

Pedro de Arimateia disse...

Joao:

desde ja agradeço o teu comentário, ja nao fazias uma visita por aqui ha algum tempo :)

bom, gostaria so de fazer umas observaçoes em jeito de complemento:

"É tudo uma questão de acreditar - tu acreditas, eu não acredito. Isso não faz de nós pessoas melhores ou piores."

Começaria por aqui porque acho qeu metade do teu comentário vai na conclusao desta frase, e eu estou completamente de acordo. A questao nao é se se é uma boa ou má pessoa. Aliás, nem isso foi alguma vez posto em causa.

"Se o Saramago acha que o deus da bíblia é um deus rancoroso e malévolo, tem todo o direito de o escrever se quiser."

Ter, tem. Agora, o proprio vir reconhecer em publico que se excedeu quanto passagens do dito cujo, parece-me irónico. E repara, depois escreves:

"Cada um tem direito a expressar a sua opinião. Se o Saramago julga deus assim, tem todo o direito de o fazer pois aquilo em que ele acredita não corresponde àquilo em que acreditam os católicos. Porque é que as pessoas religiosas ficam tão chocadas quando vêem uma manifestação de alguém que não acredita no mesmo que eles? Nunca pensaram, por acaso, que nós (não-crentes) também nos sentimos incomodados quando vemos manifestações religiosas de algo em que não acreditamos?"

O problema nao está em ele expressar a sua opiniao, mas sim a maneira como expressa. o que ele acredita nao corresponde ao que os catolicos acreditam? Pois nao. Mas isso da-lhe o direito de pegar na biblia, fazer chacota daquilo e "mandar para o ar"? É uma questao de bom-senso! E volto à mesma ideia: como é que um Nobel vem, depois do lançamento (!), dizer que se excedeu? Nao mede as palavras? so reconhece que ha maneiras e maneiras de expressar a opiniao!

Que existem zilioes de pessoas que nao sao catolicas, isso é sabido. Que tem opinioes contra a nossa fé, tambem. Tem o direito de expressar as suas opinioes? Concerteza! Mas liberdade nao pode ser confundida com abuso.

baGa disse...

eu sabia q aquele almoço no Topo não tinha ficado por ali :)

Anónimo disse...

omg..
mas pronto já não digo nada
tu nunca comeste broas por isso shiu
rir tótó

Anónimo disse...

ó sr Arimateia, gostei muito desta reflexão =D