quinta-feira, 10 de julho de 2008

Instituto Gregoriano de Lisboa

Houve um dia que sonhei, por momentos, que a nossa escola de música era tambem a nossa casa. Deixei-me envolver pelo sonho, construi uma história, e prometi que a iria escrever:


20h. Cheguei a Entrecampos. Saio do Metro lentamente, completamente estafado do dia. A casa, essa ainda nao se via, mas estava lá perto. Virei a esquina, e la ao fundo começava a deslumbrar-se. Fica no final da Avenida 5 de Outubro, e está no melhor sitio que podia estar.

Abro a porta. Os professores ja nao estao, as aulas ja acabaram. Hoje nao é o meu turno de estar a na cozinha a preparar o jantar, felizmente. Sim, o nosso internato é diferente: os alunos mais velhos ficam encarregues de tudo, inclusivé cuidar dos mais novos. Limpo os pés, e suspiro: "Lar doce lar.".

Os quartos, para quem conhece a casa, ficam no segundo e terceiro piso, cozinha e refeitório ficam no quarto. Ainda no rés-do-chão, fui ter à sala de Alunos. Entrei. Estava lá o Luis, o Jorge, a Magui, o Grilo e algus miudos do básico. Grunhiram um "boa noite", e continuaram de olhos pregados na televisao. Fui-me embora.

Quando fechei a porta, ouvi alguem a tocar piano. "A esta hora?", pensei. O som vinha do salão, e foi para lá que me dirigi. Abri a porta, e estava la o Pedro Damásio, a Bea, a Ana Spencer e claro, mais alguns miudos, todos a discutirem freneticamente as suas músicas de piano. Mal entrei, o Damásio virou-se e disse:

"André, isto nao é zona para ti". , disse com um sorriso de gozo.

"Eu sei, é abaixo da minha qualidade." , respondi com o mesmo sorriso. Era bom estar de volta a casa.

Antes de ir ver como estava a preparação do jantar, subi ao segundo andar. O meu quarto ficava por lá. Como era aluno do 8º grau de instrumento, tinha direito a quarto so para mim. Deitei-me na cama, barriga para cima. Nao havia nada melhor do que chegar aquela casa depois de um dia estafante. Descansei 5 minutos e, upa, está na hora de ir ver como estao as coisas!

Subi ao quarto andar, entrei na cozinha. Hoje estavam encarregues a Laura, a Margarida, a Ana Gomes, a Maria e a Fatinha.

"Ui! Isto hoje vai sair uma delicia", disse-lhes enquanto cumprimentava e sentia o agradavel cheiro do cozinhado.

"Comblé, camandro!", soltou a Ana. Certas expressões nunca tiveram significado próprio, sao apenas usadas porque... sao as nossas expressoes!

"André, temos que avisar o stor Ricardo que este fim-de-semana temos que fazer mais compras, estamos outra vez a ficar sem nada na dispensa.", dizia-me a Laura sem tirar os olhos da comida que confecionava.

"Mais compras? Mas entao alguem anda a devorar a dispensa à noite, ou coisa assim. Ainda na semana passada fizemos compras para... hum... duas semanas...!", respondeu a Fatinha. "Temos que ter mais cuidado com os miudos, tenho o pressentimento que ás vezes nos desleixamos para eles. E como dormimos no 2º piso, eles nao teem dificuldade nenhuma em cá chegar..."

"Entao vamos por o Alberto a dormir em frente à dispensa, assim os putos ja nao tiram nada."
, sugeriu a Ana, na bricandeira.

Rimo-nos todos da situação, imaginando o Alberto, aquela torre, a dormir em frente à dispensa.

"Bom, entao alguem tem que tratar de falar com a direcção mal possa. Amanha saio cedo, tenho estudo no IST por volta das 8. Alguem fica em casa?"
, perguntei.

"Amanha vou ter que ficar a estudar para um exame, portanto acho que posso ficar encarregue disso.", respondeu a Maria.

Sai da cozinha em direcção a um pequeno estúdio que se situava no sotão. La dentro estava o AndreBa, o AndreLo e o Tiago Amaro. De auscultadores nos ouvidos, descansavam e aproveitavam o sol que entrava pela janela.

"Lourenço, nao eras tu hoje encarregue de por a mesa, com mais alguns miudos?", perguntei.

"Oh André, pah... primeiro, nao chames Lourenço... segundo.. trabalhas é demais... tem mesmo que ser? Mandem os putos... ... pronto pronto, daqui a 5 minutos ja vou por", respondeu-me. Ainda agora quando escrevo isto, tenho alguma dificuldade em imaginar o André Lourenço a por uma mesa para mais de 30 pessoas :P

Desci as escadas. Agora era aproveitar até que nos chamassem para jantar. Era sexta-feira, o pessoal ia todo sair, tinha calhado a mim ficar nessa noite a tomar conta da casa. Fui de novo para o quarto descansar.

Habituado a ir para o meu outro quarto, que partilhava com o Tiago Oliveira, entrei de rompante e deparei-me com ele e a Ana Raquel a conversarem.

"Anda bem que te vejo", disse o Tiago, "Queres amanha ir tocar a um casamento a Alverca?"

"Até ia, mas amanha tenho que ir estudar cedo para a faculdade."

"Amanha?! Mas amanha é sabado! Vá, estudas noutro dia", tentava convercer-me a Ana.

Cedi. Sempre gostei imenso de tocar com eles, impossivel de recusar.

Enquanto conversavamos, ouvimos o habitual: "JANTAAAAAAAAAAAAAAAAAAAR!", que se gritava pelos corredores, na hora de ir para a mesa.

Era o reboliço do costume. As portas dos quartos abriam-se, o pessoal subia as escadas e reunia-se no agradavel refeitorio.

"Ora bem.. música para hoje?", perguntou o Joao Pedro.

A parte das habituais sugestoes como "D'ZRT" ou "4Taste", lá se escolheu Tchaikovsky, e o jantar começava. Porem, antes de se atacar o delicioso prato confecionado, era hora de agradecer.

"André, vá, faz lá a tua habitual rúbrica", pediu o Ricardo.

Levantamo-nos. Disse umas quantas palavras sonantes, e prontamente nos sentamos, a fome ja se fazia sentir.

A meio do jantar, houve-se uma voz grossa a pedir ainda no corredor: "AINDA HÁ COMIDA PARA MIM?". Era o Manel, chegava tarde mas a tempo de devorar, ao seu bom estilo, tudo o que havia sobrado e possivelmente ainda ficaria com fome.

Acabado o jantar, outra equipa foi escolhida para lavar a loiça, levantar a mesa, enfim... deixar tudo pronto para o dia seguinte.

Passado algumas horas, metade do IGL ia sair para a noite. Como tinha que registar quem saia, quem ficava, la me fui meter à porta.

Manel, Teresa, Laura, Baleira, Andre Lourenço, Ana. Primeiro grupo saía.

Depois passaram tao agarrados que nem me viram nem disseram aonde iam, o Tiago e a Ana Raquel.

Passado alguns minutos, Maria, Fatinha, Mariana Cardoso, Mariana Martins, Verónica, iam-se juntar ao casal que tinha passado.

Ricardo, Afonsos, Magui, Carolina iam dar um passei ali perto.

Sexta era assim. Uma dor de cabeça para quem ficava a controlar, uma diversão para quem saia.
Fechei a porta. Ouvia-se o silêncio. Sabia bem.

Depois de ter dado ordem aos miudos do básico para ir deitar, ja eram horas, a casa ficou totalmente vazia. Por mim ainda passou a Bayley, e ao nosso bom estilo sugeri-lhe que pussessemos cruelmente os putos a lavarem a casa toda com uma escova de dentes. Rimo-nos maliciosamente e tambem da estupidez da ideia, e ela tambem saiu, esqueci-me de anotar com quem ia ter.

Brutal. Assim se descreve aquela casa. Sentei-me nas escadas que davam ao primeiro andar, zona das salas de aula, e pus-me a pensar naquilo que representava para nós. Costumamos dizer, e é verdade, que ja nem nos vemos sem esta casa. Isso é bom. Mais engraçado é ver todos a abandonarem o que fazem para seguir Música, para nos dedicarmos ao que esta casa se dedicou a fazer-nos.

Enquanto subia e descia a escadas, ia falando ao telefone, bons hábitos que nao se perdem. O Verão está aí à porta, e o mais um bom ano estava a passar.

5 da manha. O ultimo grupo chegava. Era a "Rainha do Mundo", como simpaticamente chamo à Laura, mais a sua "Realeza".

"André, pah.. coiso... cenas. Obrigado! Desculpa termos chegado tanto tarde, mas ... pronto.. cenas.", disse-me.

"Vá, vai la... (bocejo)... deitar-te, eu tou a morrer de sono.". e subi as escadas em direcção ao meu quarto.

Deitei-me, apaguei a luz. Mais um dia. Vai deixar saudades.

3 comentários:

magui disse...

=) LINDO!

Já agora... onde é que imaginaste o refeitório? Sala 18? LOL
Opah... porque é que ainda não sonhei com isso??? LOL

JoaoPedro disse...

Eh pá... É que eu estou mesmo a ver as pessoas a fazerem e dizerem estas coisas... :P Principalmente o Damásio, sentado ao piano, com a Bea ao colo e a Spencer-Suspensórios debruçada sobre o piano a enrolar o cabelo com o dedo, a dizer "André, isto não é zona para ti.", com o ar de gozo dele =P
Post fantástico, parabéns! :)
Mas... Então e... Música para hoje? ;P I'm in the mood for... Stravinsky!

Joana Amaro disse...

Está fantástico, André! Brutal mesmo. Que saudades de tudo, da nossa tão nossa casa. Devo muitíssimo a essa escola. Devo quase tudo o que sou hoje, para não dizer tudo. E também já sonhei muitas vezes com ela ou com episódios com ela relacionados.
Se há sítios onde ficam pedacinhos de coração, obviamente que o IGL é um deles para mim.